[ Director: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano VI

Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

PUBLICIDADE - Crianças vêem 27 horas de TV e 30 mil anúncios

(...) "enquanto não existir um programa de educação para o consumo, que dê elementos às crianças que lhes permitam ter uma perspectiva crítica, a lei devia ser mais restritiva, como acontece noutros países europeus" (...)

João Moniz

As crianças até aos 12 anos não conseguem distinguir a realidade da ficção, pelo que é urgente impor regras mais restritas à publicidade televisiva, defende o presidente da associação Portuguesa de Direito ao Consumo (APDC). Mário Frota justifica a urgência desta alteração com o facto de cada criança ver, em média, mais de 30 mil mensagens publicitárias por ano, o que dá 82 anúncios por dia. «A TV é o grande encarregado de educação dos nossos filhos. Por semana, uma criança até aos cinco anos passa 27 horas e meio frente à televisão», revela. E se esta situação se deve aos pais que não impôem regras em casa, a situação é agravada pelas creches. «Muitos educadores servem horas de TV em vez de desenvolverem outras actividades, porque é mais cómodo», acusa Mário Frota. Apesar de as próprias agências de publicidade terem um código de conduta que as obriga a respeitar certas regras, muitas vezes elas não são aplicadas, sustenta Mário Frota: as crianças só podem participar em anúncios quando estão directamente ligadas à realidade do tema, lei que é muito desrespeitada». Mas o principal problema é as crianças serem «muito influenciáveis» e «não distinguirem os programas televisivos da publicidade». Como tal, defende o professor universitário Paulo Morais, «são levadas a comprar brinquedos perigosos ou a praticar excessos de alimentação que acabam por levar à obesidade ou ao excesso de peso».
Gostos mantêm-se em adultos
Argumentando que as crianças são um investimento a longo prazo, porque «60% das pessoas mantêm enquanto adultas as mesmas tendências e gostos por marcas que tinham quando eram mais novas», Mário Frota dá um exemplo dos perigos da publicidade: «o filho da minha secretária, que ainda não tem dois anos, chegou a casa e disse á mãe: ou me dás danoninho ou não como a sopa. As crianças estão a ser utilizadas como abre-te Sésamo das fechaduras lá de casa. São empurradas a convencer os pais a comprarem certos produtos». O presidente da APDC destaca ainda que os adultos precisam de 13 contactos com a publicidade para apreender o seu conteúdo, mas às crianças bastam dois. Por isso, Mário Frota defende que, «enquanto não existir um programa de educação para o consumo, que dê elementos às crianças que lhes permitam ter uma perspectiva crítica, a lei devia ser mais restritiva, como acontece noutros países europeus». Na Suécia e na Noruega, por exemplo, a publicidade dirigida a menores de 14 anos é absolutamente proibida. Na Grécia, entre as 7h e as 22h, não são permitidos anúncios, dirigidos a menores, sobre jogos e brinquedos.
Quase 20% de publicidade
As crianças acabam por ser as principais vítimas da influência publicitária nas grelhas televisivas. Quase um quinto da programação da televisão generalista é ocupada por publicidade. Isto porque das 96 horas de emissão diária dos quatro canais portugueses, mais de 15 são preenchidas por anúncios. Segundo dados da Marktest a que A UNIÃO teve acesso, nos primeiros nove meses deste ano, a RTP1, 2:, SIC e TVI transmitiram 4270 horas de publicidade. Isto sem contar com a referências a programas das próprias estações. Até Setembro, foram transmitidos 551 826 anúncios na televisão generalista, o que dá uma média 2021 mensagens publicitárias por dia: 84 em cada hora. Curiosamente, o mês de Setembro registou o mesmo número de anúncios que a média do ano, mas a publicidade durou mais tempo: 16 horas e meia. Facto que estará relacionado com a duração dos spots publicitários. A RTP1 é o canal em que cada anúncio demora mais (33 segundos), ultrapassando SIC (28), TVI (26) e 2: (19). Em média, cada anúnio na TV dura 26 segundos e meio.

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