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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Limpeza a seco, mesmo a seco?

in "Diário de Aveiro" - 23-02-2009

Lavar a roupa, essa tarefa tão incompreendida ao longo dos séculos, é amada por alguns ou vista como entediante e realizada quando estritamente necessária por outros, nem sempre foi tão facilitada para os proprietários do tecido em questão. Quer seja usando as rochas num riacho, o tanque da freguesia ou pressionando os botões de uma máquina, a verdade é que todas estas técnicas têm um ponto em comum: um detergente, uma acção mecânica e a água. Então e como se pode lavar a seco? Sem água, pois então!
Um pouco de história
Como grande parte das invenções, a limpeza a seco surgiu através de um “acidente” quando, em 1855 a empregada de Jean Baptiste Jolly derramou parafina sobre vários tipo s de tecido na sua fábrica de curtumes – local onde se processa o couro cru. Após a tempestade, Jean Baptiste acolheu de braços abertos a bonança, que veio do facto de ter observado que os couros ficaram bastante mais limpos após o derrame, disponibilizando assim o primeiro serviço de limpeza a seco – nettoyage à sec á comunidade. É claro que não tardaram a surgir concorrentes ao negocio da limpeza a seco, o que ate nem foi assim tão negativo – bem, talvez tenha sido para Monsieur Jolly – visto que começaram a ser usados vários solventes à base de petróleo como a gasolina, para servir o mesmo propósito. Os anos foram passando e com eles vieram vários fogos e explosões em locais onde se realizavam limpezas a seco. A razão? Os solventes à base de petróleos usados eram altamente inflamáveis e as regulamentações de segurança eram nulas. Isto levou a que William Joseph Stoddard, funcionário na área das limpezas a seco, desenvolvesse o Solvente Stoddard que tinha a vantagem de ser ligeiramente menos inflamável. Após a Segunda Guerra Mundial, começaram-se a utilizar solventes à base de cloro, bastante menos inflamáveis do que os solventes derivados do petróleo e com um poder de limpeza bastante superior. Os dois solventes sintéticos – tetracloreto carbonado e o tricloroetileno – abriram o caminho para o mais conhecido Percloroetileno (usualmente apenas PERC ou PCE). Este é um líquido incolor que dissolve uma enorme parte de toda a matéria orgânica, é volátil, altamente estável e não inflamável. Todos estes motivos fizeram do Perc a escolha numero 1 do negócio da limpeza a seco. Além de ser mais eficaz e rápido a actuar, requer equipamento mais compacto ocupando assim menos espaço, podendo ser instalado facilmente em vários locais de retalho que oferecem serviços rápidos e eficazes à comunidade.
O processo
Quando alguém deixa a sua roupa numa lavandaria a seco, estes serão os passos pelos quais irá passar… a roupa:
Marcação e inspecção – pequenos papeis identificam a roupa para que esta não se misture com a dos outros clientes e é feita uma rápida inspecção procurando a falta de botões, pequenos rasgões, etc., tudo aquilo pelo qual o serviço poderia ser posto em causa após a limpeza;
Pré-tratamento – tratamento prévio especifico em nódoas potencialmente mais difíceis de remover;
Limpeza a seco – as roupas são colocadas numa maquina e limpas com o solvente. Este é bombeado para o interior do tambor da máquina entrando em contacto com os tecidos, é sugado e filtrado e de novo bombeado para o interior, sem impurezas;
Pós-inspecção – verifica-se o estado final de roupas em geral e mais atentamente nos locais iniciais das nódoas;
Finalização – toques finais como prensa a vapor, engomar, etc.

Nos dias de hoje
Contudo nem só de vantagens vive o Percloroetileno. Este foi também o primeiro químico a ser considerado cancerígeno pela Comissão de Segurança do Consumidor, classificação essa posteriormente retirada. No entanto, a Agência Internacional para a Pesquisa de Cancro continua a classifica-lo como um cancerígeno do grupo 2A, ou seja, possivelmente cancerígeno para os humanos. A busca por produtos ambientalmente seguros, se é que existem literalmente, tem vindo a aumentar nos últimos anos como resultado de regulamentações governamentais e também através da consciencialização do consumidor relativamente aos problemas ambientais que o nosso, cada vez menos azul, planeta actualmente atravessa. A Micell Technologies Inc. tem vindo a desenvolver um sistema de limpeza à base do já famoso dióxido de carbono, ambientalmente mais seguro do que os actuais químicos. Existe no estado gasoso a temperaturas e pressões normais mas pode existir no estado liquido a temperaturas normais se uma pressão extra (várias atmosferas) lhe for aplicada.
Tendo uma consistência semelhante à de um gás e uma baixa tensão superficial, é um meio de limpeza bastante eficaz quando aplicado juntamente com detergentes específicos.

Publicado por: Jorge Frota

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