[ Diretor: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano XII

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

TOXICIDADE DO ÁLCOOL

in "Diário de Aveiro" - 26/02/09

A toxicidade do álcool pode afectar o desenvolvimento do embrião e do feto se a mãe ingerir bebidas alcoólicas durante a gravidez. Considera-se que qualquer consumo durante a gravidez é um consumo com risco.

CONSUMO DE RISCO
O consumo de risco corresponde a um tipo ou padrão de consumo que provoca danos se o consumo persistir; e que aumenta o risco de sofrer doenças, acidentes, lesões, transtornos mentais ou de comportamento.
BEBER ATÉ À EMBRIAGUEZ
Beber até à embriaguez produz um efeito de deterioração da capacidade de raciocínio, da tomada de decisões e da capacidade de auto controlo do comportamento. Neste estado, o indivíduo pode apresentar desinibição dos impulsos sexuais e de, agressividade favorável a discussões, agressões, relações sexuais não protegidas, não desejadas ou abuso sexual, em que a pessoa embriagada tanto pode ser a agressora como a vitima. A deterioração da coordenação motora pode ser causa de acidentes e lesões, nomeadamente acidentes rodoviários e laborais.
CONSUMO ESPORÁDICO EXCESSIVO
Consumo esporádico excessivo ou "binge drinking" é o consumo que excede cinco a seis bebidas no homem e quatro a cinco na mulher, numa só ocasião e num espaço de tempo limitado.
CONSUMO NOCIVO
Consumo nocivo é definido corno um “padrão de consumo que provoca danos à saúde tanto física como mental” mas não satisfaz os critérios de dependência.
DEPENDÊNCIA ALCOÓLICA
Dependência alcoólica corresponde a um conjunto de fenómenos fisiológicos, cognitivos e comportamentais que podem desenvolver-se após repetido uso de álcool. Inclui um desejo intenso de consumir bebidas, descontrolo sobre o seu uso, continuação dos consumos independentemente das consequências, uma alta prioridade dada aos consumos em detrimento de outras actividades e obrigações, aumento da tolerância ao álcool e sintomas de privação quando o consumo é descontinuado.
CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS
A co-morbilidade psiquiátrica é frequente entre os consumidores de álcool problemáticos: até 80 por cento para distúrbios neuróticos; até 50 por cento para distúrbios de personalidade; e até 10 por cento para muitas outras patologias psiquiátricas.
PLANO QUER BAIXAR NÍVEIS DE CONSUMO DE ÁLCOOL
O Plano Nacional de Redução dos Problemas Ligados ao Álcool define metas para os próximos três anos
Inverter a tendência crescente das preva1ências de consumos, principalmente entre a população jovem, baixar de 305 para 250, número de vítimas mortais em acidentes de viação que tinham taxa de álcool no sangue igual ou superior a 0,5 gramas por litro de sangue, bem como baixar de 9.6 litros para oito litros o consumo anual per capita são as metas definidas no Plano Nacional de Redução dos Problemas ligados ao Álcool 2009/2012.
Elaborado pelo Instituto da roga e da Toxicodependência, IP (IDT, IP), congregando vários intervenientes nesta temática, o plano define as metas e os objectivos estratégicos para a redução do consumo de álcool em Portugal.
De acordo com os considerandos do documento, "os padrões nocivos e perigosos de consumo de álcool têm consequências significativas em matéria de saúde pública, para além de também gerarem custos no sector dos cuidados de saúde, tendo por isso efeitos negativos no desenvolvimento económico e na sociedade em geral".
Objectivos
É missão deste plano reflectir sobre a "análise e planeamento requeridos para uma intervenção eficiente e qualificada num fenómeno tão multifacetado como é o do consumo de álcool, em Portugal".
Os problemas ligados ao consumo de álcool constituem, também em Portugal, "um importante problema de saúde pública", refere o plano apresentado pelo IDT.
A situação em Portugal deve ser analisada tendo em conta as dimensões relacionadas com consumos de álcool e problemas associados, em particular as consequências originadas pelo consumo de risco e nocivo de álcool que atingem não só o bebedor mas também a família e a comunidade em geral, à semelhança da aná1ise que se efectuou no contexto europeu.
Em 2003,segundo dados do World Drink Trends (2005) Portugal ocupava o 8. ° lugar do consumo mundial, com um consumo estimado de cerca de 9,6 litros de etanol per capita, o que corresponde ao consumo acumulado de 58,7 litros de cerveja, 421itros de vinho e cerca de 3,3 litros de bebidas destiladas.
Portugal ocupava o 4ºlugar mundial relativamente ao consumo de vinho com um consumo de 42 litros per capita. Em relação ao consumo de cerveja, os dados mostram que Portugal ocupava o 23° lugar com um consumo de 58,7litros per capita, traduzindo-se num aumento significativo no que respeita às últimas décadas. O consumo de bebidas destiladas situava-se nos 3,3 litros per capita, ocupando o nosso país o 32º lugar e registando-se um aumento relativamente aos anos transactos.
Caracterização de consumidores
O II Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Geral – Portugal 2007 abrangeu a população nacional residente no continente e nas ilhas, com idades compreendidas entre os 15 e os 64anas de idade e contabilizou uma amostra total de 15 mil indivíduos. Entre 2001 e 2007 a prevalência do consumo de bebidas alcoólicas aumentou 3.5 por cento, especificamente, de 75.6 para 79,1 por cento.
Apenas 20,7 por cento dos portugueses entre os 15-64 anos, nunca bebeu, 41,6 por cento já alguma vez bebeu seis ou mais bebidas numa ocasião. A proporção da população que iniciou o consumo de bebidas alcoólicas entre os 15 e os 17 anos representava, em 2001, cerca de 30 por cento, tendo este valor aumentado para os 40 por cento, em 2007. Neste inquérito de 2007, 15,4 por cento dos jovens dos 20-24 anos e 11,2 por cento dos jovens dos 15-19 mós diz ter-se embriagado no último mês e 0,2 por cento dos 20-24 anos e 0,5 por cento dos jovens dos 15-19 anos fê-lo dez vezes ou mais.
Os resultados dos estudos nacionais e europeus evidenciam, refere o plano, que "os padrões de consumo de risco e nocivo estão a aumentar entre as mulheres jovens na maioria dos Estados-Membros nomeadamente em Portugal".
A mortalidade por doença hepática na infecção VIH "parece ser cada vez mais relevante, senda em alguns centros europeus a segunda causa de morte a seguir à SIDA propriamente dita".

Conclusões

"O levantamento de informação sobre os Problemas Ligados ao Álcool em Portugal vem evidenciar a premência de intervir nas suas especificidades e características mais particulares da sua influência na nossa sociedade", sublinha o IDT. Isto porque a informação reunida "revela os contornos preocupantes do consumo de álcool e dos problemas que lhe estão associados".
Assim, os dados apresentados lançam bases de orientação para "avaliar e intervir nos cenários mais prioritários" que o álcool coloca à população portuguesa integrada no contexto europeu e que esta enfrenta em matéria de saúde, trabalho, justiça, sociedade e família.
O Instituto da Droga e Toxicodependência salienta que se verifica "a escassez de dados reunidos de uma forma mais sistemática e concertada nesta matéria, de forma a descrever com mais objectividade o efeito do consumo excessivo de álcool na etiologia e manutenção de inúmeros problemas de saúde, legais, sócio familiares e económicos", pelo que propõe a mação de um sistema de informação robusto com informação consistente nas diversas áreas, privilegiando o papel da investigação".

Metas até 2012

Inverter a tendência crescente das prevalências de consumos e:
· Baixar de 20,7% (2007) para 18% a prevalência de embriaguez no último ano na população portuguesa;
· Baixar de 34.6% (2007) para 30% a prevalência de embriaguez no último ano em jovens entre os 15-19 anos;
· Baixar de 48,3% (2007) para 43% a prevalência de consumo binge (mais de 6 ou 4 bebidas numa só ocasião) pelo menos uma vez no último ano nos jovens entre 15-24 anos;
· Baixar de 305 (2007) para 250 o número de vítimas mortais em acidentes de viação que tinham taxa de álcool no sangue igual ou superior a 0,5 g/l;
· Baixar de 18,8% (2006) para 14% a taxa de mortalidade padronizada por doenças atribuíveis ao álcool antes dos 65 anos;
· Baixar de 9,6 L (2003) para 8L o consumo anual per capita.
Consequências negativas do consumo de álcool
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o álcool causa, anualmente, 1,8 milhões de mortes (3.2% do total) em todo o mundo. A variação da carga de doença provocada pelo consumo de álcool nos vários países depende, pelo consumo de álcool nos vários países depende, pelo menos, de dois factores: da quantidade total de álcool consumida no país, para o qual o indicador é o consumo per capita, e da forma como o álcool é consumido, ou seja, o padrão de consumo.
O estudo referido pelo plano evidencia que a Europa é a zona do mundo com consumo mais elevado de álcool com cerca de II litros per capita e em que cerca de cinco por cento de homens e um por cento de mulheres são dependentes. O álcool é responsável por 7,4 por cento de todas as incapacidades e mortes prematuras na União Europeia (UE).

Mortes na UE

No que se refere à mortalidade, o álcool é responsável por cerca de 195 mil mortes, por ano, na UE. A percentagem de mortes atribuíveis ao álcool é maior nas idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos e é mais elevado no sexo masculino (cerca de 25 a 30% do número total de mortes) que no sexo feminino (10 a 15%).
É responsável por cerca de 60 doenças diferentes, por actos de violência, homicídios (4 em cada 10 de todos os assassinatos e mortes violentas) suicídios (1 em cada 6 · de todos os suicídios) acidentes rodoviários (1 em cada 3 de todas as mortes na estrada) por 60 mil nascimentos abaixo do peso normal, prejuízos no desenvolvimento cerebral do feto estando relacionado com défices intelectuais nas crianças e sendo a maior causa de debilidade mental evitável na Europa.
Na UE há 5,9 milhões de crianças que vivem em famílias afectadas pelo álcool. Calcula-se que 16 por cento (Comissão (Bruxelas 24/10/2006, COM (2006) 625 final) de todos os casos de abuso infantil e negligência são causados pelo álcool e a quantidade de crianças que já nascem afectadas pelos seus é ainda incalculável.
Cerca de um quarto dos acidentes pode estar relacionado com o consumo de álcool e, na UE, estima-se que, pelo menos, dez mil vidas poderiam ser poupadas caso fosse eliminada a condução sob o efeito do álcool.
A nível laboral, a OMS estima que o consumo de álcool reduz a produtividade em mais de dez por cento.
Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho, 1996) globalmente, 3,5% da população trabalhadora é dependente de álcool e 25% está em risco de se tomar dependente.
A OMS (2004), refere que, no campo da segurança, mais de 25% dos acidentes de trabalho e cerca de 60% dos acidentes de trabalho fatais podem estar associados com o álcool.

Publicado por: Jorge Frota

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