O sector da restauração é um dos mais afectados pela instabilidade económica. Só nos primeiros três meses de 2009, as vendas caíram entre 20 e 30 por cento, prejudicadas pela transferência das refeições para dentro de casa. Já encerraram centenas de estabelecimentos desde que a crise se instalou e os empresários estão pouco optimistas em relação ao futuro. A associação do sector pede, por isso, mais intervenção do Governo.
O negócio da restauração já tinha mostrado as suas debilidades perante a crise em 2008, mas o primeiro trimestre deste ano veio intensificar a deterioração das receitas.

De acordo com a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), que representa 25 mil empresas, registou-se "
uma quebra de entre 20 e 30 por cento nas vendas dos restaurantes" neste período. Descida justificada, em grande parte, pela tradicional transferência de consumo em épocas de turbulência económica. "
Os portugueses estão mais preocupados em poupar dinheiro e fazem menos refeições fora de casa", explicou
José Manuel Esteves, secretário-geral da associação.
Esta mudança de hábitos está a provocar o encerramento de muitos restaurantes no país. "
Desde que a crise rebentou, fecharam centenas", sublinhou o responsável. O saldo líquido é, porém, positivo, uma vez que o ritmo de novas aberturas supera o número de estabelecimentos que fecharam as portas. Isto porque "muitas pessoas vêem na restauração uma saída para o desemprego", afirmou o responsável.
No entanto, a associação não vê nesta tendência um sinal positivo. "São pessoas que não têm formação e que têm dificuldades. Acaba por ser prejudicial ao sector porque não são investimentos consistentes e porque já há excesso de oferta no mercado", acrescentou.
Uma descida cirúrgica
A crise não afecta todos os estabelecimentos da mesma forma. Há, dentro do sector, quem sofra mais com a retracção dos portugueses, como é o caso dos restaurantes topo de gama, agora vistos como "
luxos desnecessários", referiu
José Manuel Esteves. Só para este segmento, a
AHRESP calcula que a quebra nas vendas ronde os 50 por cento.
Seguem-se no ranking dos mais lesados os bares e as discotecas, encarados como "
fonte de gastos supérfluos" e cujas receitas "
diminuíram entre 30 e 40 por cento" nos primeiros três meses deste ano, revelam os dados da associação. E, por último, os restaurantes que vivem, essencialmente, do mercado de escritórios, durante o horário de almoço. Neste caso, as descidas na ordem dos 20 a 30 por cento têm na base "
o regresso das lancheiras", explicou, referindo-se aos portugueses que passaram a almoçar no local trabalho.

As estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE) corroboram os números da AHRESP, embora não de forma tão pessimista. Os indicadores de Março mostram que o volume de negócios referente ao sector de alojamento, restauração e similares recuou 9,8 por cento, seguindo a rota descendente dos meses anteriores. A pior quebra, na ordem dos 12,3 por cento, deu-se em Dezembro de 2008.
Dados pouco animadores
Também um barómetro da associação, elaborado nessa altura, mostrava dados pouco animadores. A partir de um inquérito interno, conclui-se que 76,6 por cento dos associados admitiam uma quebra nas vendas. E que, deste grupo, 30,7 por cento referia que o abrandamento se situava acima dos 20 por cento. No estudo da AHRESP, apenas 12,4 por cento dos empresários diziam estar a sentir uma melhoria no volume de negócios, sendo que, na maioria dos casos, as subidas se ficavam entre 0,1 e cinco por cento.
Mais do que uma queda generalizada, a instabilidade económica feriu não só determinados segmentos negócio, mas também categorias de produto específicas. "
Mesmo os portugueses que vão a restaurantes, abdicam de certas despesas mais superficiais, deixando de lado as entradas, as bebidas e as sobremesas", explicou
José Manuel Esteves.

Um
relatório da consultora AC Nielsen mostra que os gelados, os bolos e as pastilhas elásticas são dos artigos mais prejudicados pela actual aversão dos portugueses aos gastos fora do lar, com quebras de 16, 14 e 12 por cento, respectivamente, em 2008. O estudo, que incidiu sobre 80 mil pontos de venda nacionais (cafés, restaurantes e snacks) mostra, ainda, que, além dos doces, também as bebidas, como o vinho, a água e o café, estão a sofrer com a crise.
Os indicadores da restauração contrastam com os bons resultados que a grande distribuição tem atingido nos últimos tempos, graças à propensão dos consumidores para encher a despensa de casa. Dados do primeiro trimestre de 2009, cedidos pela empresa de estudos de mercado TNS, revelam que as compras nos supermercados e hipermercados aumentaram 2,9 por cento em volume e 3,9 por cento em valor.
E, mesmo neste meio, a crise tem obrigado a fazer escolhas. No início de 2009, alimentos como as salsichas, os congelados e as conservas assistiram a um forte aumento da procura, ao contrário do que se passou, por exemplo, com a carne e a fruta.
Publicado por: Jorge Frota