[ Diretor: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano XII

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Factura: Cada português deve 18,3 mil euros a bancos estrangeiros

por: RUDOLFO REBÊLO

in: "DN" - 29 Abril 2010


A dívida líquida não pára de crescer. Estado pede mais dinheiro e a banca, sem poupanças e pressionada com empréstimos às famílias e empresas, deve ao estrangeiro o equivalente a 46,7% do PIB


O contra-ataque português aos especuladores surgiu ontem logo pela manhã, com o Tesouro a dar ordem de recompra de 300 milhões de euros em obrigações do Tesouro (ver caixa). Uma gota de água, um gesto simbólico face aos quase cinco mil milhões de euros que Portugal, dentro de dias, terá de pedir emprestados para refinanciar parte dos 182,7 mil milhões de euros do saldo de dívida externa.
Uma dívida contraída pelo Estado - para financiar os défices anuais dos orçamentos - pelas famílias e empresas nacionais, que significa o trabalho de 13 meses dos portugueses. Por outras palavras, cada português deve 18,3 mil euros aos bancos estrangeiros, como o belga Fortis ou o ABN.
A mensagem do "ataque simbólico" aos especuladores foi de que "não estamos com a corda na garganta". Mas, valha a verdade, como afirmam os economistas, "o País consome mais do que produz" e "está a viver à custa das poupanças dos estrangeiros".
Como foi possível chegar a esta situação? Na verdade, o total da dívida externa é muito maior: a chamada "dívida bruta" - sem contabilizar os activos - é o triplo do PIB, o equivalente a mais de três anos de trabalho dos portugueses. É o resultado do "crédito à descrição sem limites" proporcionado por baixas taxas de juro. Serviu para comprar casas, carros e consumo em hipermercados. De tal modo que o montante total das dívidas das famílias à banca excede em 35% o salário médio anual, já descontados os impostos (rendimento disponível).
Os défices anuais do Estado - provocados por excesso de despesas em relação a receitas com impostos - também contribuíram para o aumento da dívida interna e externa. Só no ano passado, o Estado teve de contrair mais 15,4 mil milhões de euros (9,4% do PIB) para pagar o défice. Gasta em demasia com salários, saúde, educação, exército, Segurança Social, para o nível de produção do País. Este ano serão mais 13,2 mil milhões de euros (8,3% do PIB). Por fim, as dívidas das empresas nacionais são das mais elevadas da OCDE. Isto ajuda a explicar porque o investimento empresarial não descola.
Sem depósitos em quantidades suficientes - ou seja, sem poupanças dos portugueses - a banca nacional teve de pedir emprestado aos banqueiros estrangeiros para satisfazer a apetência do País pelo crédito. O saldo dos empréstimos (promovidos pela banca) chegou a atingir os 57% do PIB em 2007, mas, de então para cá, os bancos reduziram a exposição. É que a própria banca, ameaçada pelo peso do endividamento, começou a restringir o crédito concedido às famílias.
Contas feitas, para sustentar a dívida ao estrangeiro, em média cada português pagou de juros cerca de 590 euros, em 2009. Só o Estado - para sustentar a dívida em títulos do Tesouro - pagou quase cinco mil milhões de euros em juros a bancos nacionais e estrangeiros. Outros 5,9 mil milhões de euros em juros foram pagos ao estrangeiro pelas famílias e empresas. É isto que ajuda a explicar - em conjunto com a balança comercial - um défice externo de 9,4% do PIB em 2009.

Sem comentários: