por: Sérgio Aníbal
in "Público" - 30 Junho 2010
Termina amanhã o prazo de devolução do maior empréstimo da história do BCE. Nos mercados, receia-se pela estabilidade financeira dos bancos
Jean-Claude Trichet
Os bancos da zona euro vão ter de devolver, até ao dia de amanhã, os 442 mil milhões de euros que tinham pedido ao BCE há precisamente um ano e os mercados estão com medo dos efeitos que isso poderá ter nas suas já muito frágeis contas.Em Julho do ano passado, para ajudar as instituições financeiras a superarem os seus problemas de liquidez, o banco central da zona euro decidiu dar uma ajuda inédita: um empréstimo ilimitado a um ano com uma taxa fixa de um por cento. Os bancos aproveitaram a ajuda de uma forma nunca vista, tornando este empréstimo no maior alguma vez realizado pelo BCE.
O problema é que agora chegou a altura de pagar e o BCE, apesar de continuar a fazer leilões a taxas fixas, já não está tão generoso, limitando-se agora a conceder empréstimos de mais curta duração até a um máximo de três meses. Isto pode agravar os problemas de gestão da liquidez dos bancos da zona euro, que, com a crise da dívida soberana que se instalou desde o início do segundo trimestre deste ano, ficaram com o mercado interbancário (onde emprestam dinheiro uns aos outros) e com o mercado obrigacionista praticamente congelados.
Os bancos gregos, espanhóis e portugueses estão entre os mais penalizados.
Ontem, o Financial Times dava conta na sua edição dos protestos feitos pelos bancos espanhóis junto do BCE pelo facto de este ter deixado de conceder crédito a um prazo mais longo. “Qualquer banco central tem a obrigação de garantir a liquidez. No entanto, esta não é a política do BCE e estamos a discutir com eles todos os dias sobre isto. É absurdo”, afirmou ao jornal um gestor de um banco espanhol que não se quis identificar.
A reacção dos mercados a estes desenvolvimentos foi ontem muito negativa. As bolsas caíram e o euro depreciou-se fortemente face às outras divisas. O PSI20, o principal índice da bolsa portuguesa, perdeu 2,67 por cento, mas o pior resultado foi precisamente registado em Madrid, com uma queda global de 5,45 por cento e o sector bancário a sair fortemente penalizado. Os maus resultados estenderam-se ao fim do dia
aos mercados norte-americanos.
Dependência crescente
A dependência dos bancos europeus relativamente aos fundos do BCE tem vindo a acentuar-se durante este ano, tendo disparado em quase todos os países a partir de Maio. Em Portugal, este fenómeno foi muito evidente.
De acordo com os dados do último boletim estatístico do Banco de Portugal, a cedência de liquidez feita pela autoridade monetária aos bancos nacionais atingiu em Maio um novo máximo histórico, com um total de 35.771 milhões de euros, um valor que é mais do dobro dos 17.721 milhões que se registavam em Abril. Em Maio do ano passado, os empréstimos do BCE aos bancos portugueses não passavam dos 4957 milhões de euros.
O BCE entretanto continua a tentar acalmar os mercados noutra frente que tem causado preocupações: a do financiamento dos Estados. De acordo com a Bloomberg, citando operadores do mercado, o banco central liderado por Jean-Claude Trichet, acelerou, durante o dia de ontem, as suas compras de obrigações do tesouro gregas, espanholas e portuguesas, tentando contrariar a pressão de subida das taxas de juros que os investidores continuam a exercer. Também por esta via o BCE dá uma ajuda aos bancos, já que estes estão entre os principais detentores dos títulos de dívida europeia e ficam com a oportunidade de não ficar com estes activos ainda mais desvalorizados.
Uma coisa é certa, tanto os bancos como os Estados estão totalmente dependentes do dinheiro do BCE.
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