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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Há mais portugueses a não consumir álcool, mas os que “bebem, bebem muito”

in Jornal “Público” - 30.Nov.2010

Portugal continua a ser um dos maiores consumidores mundiais de bebidas alcoólicas. E se ao longo dos anos as quantidades ingeridas têm diminuído, os excessos continuam preocupantes

A quantidade de álcool consumida em Portugal está a diminuir. Os responsáveis ligados ao sector da produção de bebidas alcoólicas falam num decréscimo que se verifica há já vários anos e que tende a manter-se. Como explicações para o fenómeno, referem maiores preocupações dos consumidores com a saúde, hábitos que se foram alterando de geração em geração e a actual crise económica e financeira. Manuel Cardoso, vice-presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT), não nega uma diminuição, mas sublinha a necessidade de uma leitura dos dados. Assim, a quantidade total de álcool consumida em Portugal pode até estar a diminuir, mas os valores por consumidor continuam elevados e os hábitos de consumo preocupantes.

Segundo um estudo do Eurobarómetro, de Abril de 2010, somos o país da União Europeia que tem maior percentagem de não consumidores em 2009”, afirma Manuel Cardoso, apontando 42 por cento de portugueses que não consumiram bebidas alcoólicas. No entanto, “os que beberam, beberam muito”, diz o vice-presidente do IDT. “Há, principalmente nos jovens, padrões de consumo de bebidas destiladas em altas doses e em pouco tempo”.
Uma das propostas do Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool, aprovado em Maio em Conselho Interministerial, visa alterar, de 16 para 18 anos, a idade mínima para consumo de álcool. O vice-presidente do IDT diz que é preciso começar por implementar a lei que existe, e que proíbe o consumo de álcool a menores de 16 anos, e fiscalizar mais. “Depois, far-se-á a alteração, se for adequada e necessária para garantir o cumprimento da lei, e aumentar-se-á a idade dos 16 para os 18 anos”.

Hoje de manhã, é assinada, em Loures, a Carta de Compromisso do Fórum Nacional Álcool e Saúde. Cerca de 40 entidades, ligadas à produção de bebidas alcoólicas, sociedade científica, marketing e publicidade, prevenção e sensibilização, vão apresentar projectos para reduzir problemas ligados ao álcool.

Os números do INE
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, o consumo de vinho diminuiu cerca de 33 por cento desde 1992, ano em que foi de 600,5 milhões de litros. Já no que diz respeito à cerveja, registou-se, no ano passado, o menor consumo por habitante, desde pelo menos 2003, com 59 litros, segundo estatísticas da Brewers of Europe (associação que representa cervejeiras de 15 países da União Europeia). No sector das bebidas espirituosas, a quebra no consumo começou a fazer-se sentir no final da década de 90 e, este ano, as empresas queixam-se de uma grande redução.

Num país que, em 2003, se encontrava, segundo dados do World Drink Trend de 2005, no 8.º lugar, a nível mundial, em termos de consumo de álcool, os hábitos estão a mudar, acreditam responsáveis ligados ao sector. Francisco Gírio é secretário-geral da Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja: “Não existe aumento de consumo de álcool em Portugal desde há muitos anos”, afirma. “O consumo de cerveja tem vindo lentamente a diminuir, em média dois a três por cento ao ano.” Como explicação para o fenómeno, aponta “as políticas públicas, que existem no sentido da prevenção do consumo abusivo de álcool” e que se têm reflectido “na forma de beber dos portugueses”. O responsável acredita que os padrões de consumo de bebidas alcoólicas estão a tornar-se “mais saudáveis”, com os portugueses a beberem de forma mais moderada. “Não se abusa das bebidas como há 20 ou 30 anos.”
No sector das bebidas espirituosas, a tendência tem sido para uma diminuição do consumo. Quem o diz é Mário Moniz Barreto, secretário-geral da Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas (ANEBE). Segundo o responsável, nos anos 90, os portugueses deixaram de beber tanto vinho e passaram a beber uma média de dois litros de bebidas espirituosas por ano, valor superior ao que anteriormente se registava: 0,8 litros anuais. Já quase no início do novo milénio, a tendência mudou. Mário Barreto fala num mercado que se tem “ressentido de uma evolução do consumo negativa” e em que as empresas notam “uma redução grande do consumo de bebidas espirituosas”.
O secretário-geral da ANEBE acredita que a tendência para o decréscimo, mais pronunciado desde 2006, se deve ao facto de as pessoas beberem “cada vez com maior preocupação em relação à sua saúde”. A crise também terá a sua quota-parte de responsabilidade. “As pessoas estão preocupadas com as suas finanças” e não gastam tanto dinheiro com bebidas alcoólicas.
Para a diminuição do consumo de vinho, Ana Sofia Oliveira, directora de marketing da ViniPortugal, encontra várias explicações. “A geração dos nossos pais e avós tinha o vinho integrado nos hábitos alimentares e isto já não acontece com as gerações mais novas”. Para além disso, o facto de se associarem ao vinho as campanhas de prevenção de abusos no consumo também contribui para a descida. “Quando se fala no abuso de álcool, a imagem que é associada é a de um copo de vinho.”
O consumo de bebidas alcoólicas deverá continuar a diminuir. “Este fenómeno é geral em toda a Europa”, afirma Francisco Gírio. De acordo com o jornal The Guardian, 2009 foi o ano em que se registou em Inglaterra a maior descida no consumo de álcool desde 1948. Os ingleses estão a beber 13 por cento menos desde 2004. Mário Barreto acredita que a indústria vai continuar numa “situação negativa, que, até ao final de 2011, se vai agravar”.

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