[ Diretor: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano XII

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

SABER VIVER: Entrevista ao Prof. Mário Frota, presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo



Saber Viver
Edição de Agosto
Secção: Bem-estar/Sociedade
Tema do artigo: O aumento do número de mulheres solteiras em Portugal e o seu impacto na sociedade

Mário Frota foi instado por uma jornalista para uma entrevista que seria destinada à edição de Agosto de 2016 da Revista SABER VIVER.

Não sabemos se a edição veio ou não a lume porque nem sequer um exemplar da REVISTA nos foi presente.

Mas, pelo eventual interesse que possa haver, aqui ficam as respostas de Mário Frota às questões suscitadas pela jornalista:


Entrevista ao Prof. Mário Frota,
presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo

SABER VIVER: O número de mulheres solteiras em Portugal disparou nos últimos anos, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística. Por um lado, há cada vez mais mulheres que optam por não casar, escolhendo ficar sozinhas e seguir com uma vida totalmente independente. Outras que optam por adiar o casamento, pois este não é uma prioridade para elas. Por outro lado, há cada vez mais mulheres que optam por não oficializar a sua relação amorosa...

- Esta mudança social teve algum impacto ao nível do consumo, nomeadamente ao nível do perfil do consumidor?

Mário Frota: As repercussões são óbvias: quer no que ao cabaz de produtos e serviços de consumo se reporta como no que se prende com os padrões de consumo e o perfil de consumidor que aí radica.
Há como que produtos específicos aferidos em função do género como se divisam outros cujo consumo se induz mediante as estratégias mercadológicas artificiosamente desencadeadas e que colhem naturalmente seus frutos, como se não ignora.
No entanto, convém significar que a situação que se observa em Portugal é ainda subsidiária da crise que em 2008 se abateu sobre a Europa e, em particular, sobre o país e que de todo se não superou ainda.
O IPAM, em estudo que veio a lume no pretérito Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, revela dados nada surpreendentes, aliás, mas que condicionam os padrões de consumo outrora observados:
“… os argumentos financeiros têm um peso muito significativo, no que toca à compra de produtos alimentares: 72 por cento admite que as compras alimentares são feitas em função do preço, de campanhas e promoções e de uma gestão rigorosa do orçamento, em detrimento da qualidade do produto. O peso financeiro faz-se sentir cada vez mais, também, na compra de bens não perecíveis, como roupa, sapatos, brinquedos, etc, com 75 por cento dos consumidores a admitir que a sua compra é influenciada pelo preço e pela gestão rigorosa do orçamento.
Viagens e férias fora do país (51,7 por cento), viagens de curta duração (inferior a quatro dias) fora do país (49,4 por cento), viagens de curta duração dentro do país (48 por cento) e a alimentação fora de casa (50,5 por cento) são, pela respectiva ordem, as áreas onde os consumidores portugueses mais cortaram no consumo ao longo dos últimos 12 meses. O que contrasta com as actividades de educação (mais de 30 por cento), seguido da alimentação em casa (cerca de 25 por cento), onde os consumidores aumentaram o consumo.”
De qualquer sorte, o peso das mulheres solteiras tem significativa influência nos padrões de consumo ante a especificidade das necessidades postuladas, que escapam, em geral, às mulheres com vínculos conjugais ou que se lhes equiparem.


SABER VIVER: Quem são os principais consumidores em Portugal? Está provado que as mulheres passaram a liderar a lista dos principais consumidores?

Mário FROTA: As mulheres, em distintos domínios do mercado de consumo, constituem o “estamento” mais numeroso. Em razão do fenómeno ora em foco, sem dúvida, como da circunstância de serem tradicionalmente as guardiãs do lar, já que detêm, de resto e no geral, o governo doméstico. E o facto, pela notoriedade universal em que assenta, não carece nem de alegação nem de prova, como sói dizer-se.

Mas são-no também, em geral, pelo facto de serem estatisticamente mais numerosas que os homens: há simplesmente, entre nós, mais mulheres que homens!

Os estudos de opinião elaborados por agências a tanto vocacionadas registam-no em distintas esferas, como o mais numeroso grupo de consumidores, a saber, em:

. ginásios
. centros de estética
. produtos de higiene
. perfurmaria, cosméticos (gel, spray ou espuma para cabelo…) e detergentes
. fármacos, v.g, anti-histamínicos, anti-depressivos…
. suplementos alimentares (2/3 dos consumidores são mulheres sem distinção de estado)
. produtos alimentares,  a saber, bio, leite de soja, yogurtes, chocolates, barras de cereais, chá gelado, “take-away”…
. produtos culturais (livros, conteúdos digitais, produtos similares…) (as consolas de jogos, em casa, fazem, no entanto, pender a balança para os homens…)
. tecnologias de informação e da comunicação
. cartões de fidelização em espaços comerciais (sobretudo nas classes mais elevadas em que a supremacia pertence efectivamente às mulheres… et pour cause!)
. …

Registe-se o que, em decorrência de abordagens que se dirigem a um tal universo-alvo, a Markest conclui, entre nós, que as mulheres:

Usam champô para cabelos normais (23%) ou anti-caspa (22%) e condicionadores (68%). Preferem gel, spray ou espuma de cabelo (27%) a laca (26%).
Vão regularmente ao cabeleireiro (48% foi nos últimos 30 dias) ou centro de estética (14% nos últimos 30 dias).
Não dispensam o perfume (81%) nem o protector solar (56%).
Usam creme de rosto (83%), mãos (75%) e corpo (70%).
Na maquilhagem, não dispensam batom (47%) e maquilhagem de olhos (43%). A base de maquilhagem (33%) e o blush (23%) fazem também parte dos seus hábitos. Mas o verniz de unhas é indispensável (61%).
74% das mulheres diz cuidar da sua imagem/aparência e 39% diz fazer diversas actividades para se manter em forma.”
E no que tange a bens culturais, o livro, ainda como paradigma, suscita outro tipo de considerações na contraposição homem/mulher.

Confira-se o que ora se nos revela:
Enquanto 55.4% dos homens refere ter lido pelo menos um livro nos últimos 12 meses, entre as mulheres a percentagem sobe para 74.0%.
Entre as idades, encontramos maiores taxas de leitura nos mais jovens (78.7% entre 15 e 24 anos), baixando sistematicamente depois dessa idade…”
(Em Espanha, porém, os dados equivalem-se. Confira-se o que uma outra fonte nos oferece a tal propósito:
“Perfil del mayor consumidor de cultura: mujer, joven y con estudios
Entre las mujeres es mayor la afición por la lectura, un 66,5% declaran leer libros al menos una vez al año, frente al 57,6% de los hombres, con excepción de la lectura profesional y la prensa. También es mayor la frecuencia con la que de manera presencial las mujeres asisten a las bibliotecas -25,2%, respecto al 20,2% de los hombres- al igual que sucede en los accesos a bibliotecas a través de Internet –un 8,3%, frente al 7,5% de los hombres.”)

Crê-se que no mais escasseiam os estudos segmentares, em que a fractura mulher celibatária versus mulher com vínculo conjugal ou equiparado se defina impressivamente…

E seria curial conhecer-se, com rigor, o que contradistingue essa dicotomia, que elementarmente se intui, mas que importaria reforçar com dados factuais… que ora nos escapam.

SABER VIVER: O que mudou nos hábitos de consumo/compras destas mulheres que optam por ficar solteiras?


Mário Frota: O enfoque passa a estar, ao que se nos afigura, no círculo dos seus interesses pessoais. E nos que tendem a sedimentar-se ante o seu peculir “modus vivendi”:

. uma maior auto-estima;

. o acesso a um mercado de produtos que tendem a privilegiar a forma, a estética, o seu rejuvenescimento, a exploração da sua imagem;

. o acesso a bens culturais com as naturais limitações decorrentes dos seus réditos;

. a capacidade de deambulação ante a libertação de tarefas que em geral condicionam ferozmente a liberdade de quem tem compromissos no âmbito da sociedade conjugal e o que daí decorre naturalmente…


SABER VIVER: Esta mudança social também contribuiu para o aumento do consumo feminino... As próprias marcas também ajustaram o seu posicionamento e estratégias de marketing às "novas consumidoras"? De que forma?

Mário Frota: Fizeram-no naturalmente, como ora o fazem também em relação aos seniores, dadas as especiais características que os enformam.

E este peculiar “universo-alvo” não escapa necessariamente nem às marcas nem às estratégias mercadológicas que adoptam para atrair esta invejável massa de consumidoras, cujo potencial económico se não pode menosprezar pela especial moldura em que se inserem.

E fazem-no tendo em atenção os “pontos fracos” (passe, por menos rigorosa, a expressão) a explorar: a proverbial vaidade feminina, o permanente hino de louvor à juventude, à independência, à liberdade, às facilidades em vista de uma vida menos absorvente e mais disponível, a uma vida mais despegada, a uma vida mais preenchida com o que efectivamente é susceptível de a preencher...


SABER VIVER: O que procura, tipicamente, esta mulher moderna que não depende da opinião masculina para tomar as suas decisões?

Mário Frota: Procurar, procura exactamente os produtos e serviços, quais meios que tendem a proporcionar-lhe os pilares do estilo de vida que intenta materializar no quotidiano.

Ou, noutra formulação, de que depende “esta mulher moderna”?

E, depender, depende do que chega à sua esfera de conhecimento…

. Da comunicação comercial centrada em torno de produtos e serviços que lhe são particularmente dirigidos, meio sensível susceptível de influenciar as escolhas;

. Do seu acesso a um mundo multímodo e pluriforme de que as tecnologias da informação e do conhecimento tendem a abrir-lhe as suas portas de par em par;

De modo genérico, e em termos ideais, o acesso a produtos que concorram para a sua auto-estima e equilíbrio, para a sua plena realização pessoal, a saber,

. a moda
. os cosméticos
. o bem-estar físio-psíquico;
. a alimentação
. os produtos dietéticos
. os produtos bio
. os suplementos alimentares
. os bens culturais…

Mas também para domínios outros, a saber:
. viagens
. turismo (cultural, ecológico, religioso…)
. actividades de recreação nocturna(onde os níveis de frequência, aliás, se repartem, entre nós, com eventual e ligeira supremacia para os homens)…


SABER VIVER: Esta mudança social também teve repercussões na legislação que regula os direitos dos consumidores? Quais foram as principais alterações?

Mário Frota: Não há, em geral, tanto quanto se nos afigura, eventuais repercussões na legislação autónoma e especialmente considerada. De modo reflexo, poder-se-á entrever uma intervenção mais decisiva, a nível europeu (com maior propriedade, da União Europeia) na disciplina dos cosméticos, em geral com reserva de género, em determinados segmentos, se bem que os homens tendam a invadir esse espaço, como hodiernamente se reconhece, e na das alegações nutricionais… e em outros domínios demarcados com um subtil toque de género… Mas nada de marcante!

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