[ Director: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano X

sexta-feira, 17 de março de 2017

A economia do enriquecimento

 

 Opinião

Hoje, o que produz mais valor já não é a capacidade industrial: é a economia que usa os processos de enriquecimento especulativo do que já existe.
Acaba de sair em França um volumoso estudo dos sociólogos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre. Chama-se Enrichissement - une critique de la marchandise e é uma imponente análise e descrição de uma transformação económica iniciada no último quartel do século XX: de uma economia industrial passou-se para uma “economia do enriquecimento”. Enquanto a primeira incidia no desenvolvimento da capacidade produtiva de objectos standardizados e extraía valor de um alto nível de exploração do trabalho, a segunda baseia-se no factor do “enriquecimento”. Esta palavra é usada no livro com um sentido ambíguo: refere-se a uma economia inteiramente voltada para o luxo (portanto, destinada prioritariamente aos ricos), mas também às operações de enriquecimento de coisas existentes, no mesmo sentido em que se fala de enriquecimento de um metal. Por conseguinte, esta nova economia própria de um capitalismo desindustrializado não corresponde à produção de objectos novos, mas à criação de valor especulativo em tudo o que já existe e tem um passado. Hoje, como se pode ver em lojas de mobiliário “vintage”, até móveis e objectos do Ikea são vendidos como peças valiosas depois de serem “descontinuados” nas lojas da cadeia sueca. A indústria do luxo, o comércio de objectos antigos e de colecção, a criação de fundações e de museus, as artes e a cultura, a patrimonialização e o turismo: tudo isto faz parte dessa economia que tende a criar “bassins” – bolsas – de enriquecimento (por exemplo, lugares onde há uma concentração de edifícios de culto, por vezes uma cidade inteira). Em certos casos, essas bolsas são induzidas por aquilo a a que Boltanski e Esquerre chamam “patrimonialização provocada”. Foi o que aconteceu em Bilbau, uma cidade outrora industrial, resgatada para a arte contemporânea e para o turismo cultural através da implantação do museu Guggenheim, projectado pelo arquitecto Frank Gehry.
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