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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Uber. Os motoristas que cobram a viagem “por fora”






 



por: Tiago Palma
 20.Abril.2017




Há motoristas da Uber que propõem aos clientes viajar sem utilizar a aplicação, pagando o valor mínimo definido pela própria empresa. Usam o nome da Uber, mas ficam com o dinheiro todo para eles.
A viagem é agendada na manhã do próprio dia por telefone. O encontro será depois de almoço numa rua do centro de Lisboa. Cinco minutos são suficientes para definir tudo. “Está combinado, pronto. É assim: o ideal é ligar-me algum tempo antes, ou de véspera. Mas se não conseguir, não há problema: liga-me na mesma, diz onde é que está e, desde que eu me encontre a dez minutos de distância de si, vou buscá-lo a qualquer lado e levo-o”, começa por explicar “António” (nome fictício), motorista da Uber há pouco mais de cinco meses. E qual o valor a pagar? “O que eu normalmente digo aos clientes é: use a aplicação [da Uber] para ver quanto é que a viagem lhe vai custar. Depois, desliga a aplicação da Uber, liga-me diretamente, e só terá de pagar o valor mínimo da viagem. Ou seja, se a viagem lhe custar entre oito e dez euros, só paga os oito. Está a perceber? Se não tiver a aplicação – e há muita gente que não tem, claro –, eu mesmo a ligo e vemos logo o valor quando entrar no carro. Não tem nada que enganar”, acrescenta.

Pouco antes da hora agendada, o telefone toca:

– “Estou? É o ‘António’, da Uber. Olhe, era só para lhe dizer que estou aqui à sua espera na rua, está bem? Até já, até já…”

No telefonema, “António” explica qual o modelo e a matrícula do carro. O motorista aguarda-nos no exterior e, à chegada, abre prontamente a porta de trás. Lá dentro, a aplicação da Uber está desligada, mas o telemóvel continua pousado sobre o tablier. “Ufffff, estava a ver que não chegava aqui a tempo! É que antes de vir ter consigo fui levar uns turistas a Almada — queriam ir até ao Cristo Rei. Mas cheguei, pronto. E então, está tudo bem para si? O ar condicionado está bem assim? E o rádio, quer que mude?”, questiona, num trato que é habitualmente o dos motoristas da Uber. Mas esta não é uma viagem da Uber.

– De manhã nem lhe perguntei, oh senhor Tiago: como é que conseguiu o meu contacto? [Olha pelo retrovisor para o banco de trás] Hmmm, não me recordo de si…
– Foi uma amiga, a ‘Luísa’, quem me aconselhou ligar-lhe.
– Ah, sim! É normal. Como lhe disse, ligue sempre que precisar de mim.
– Mas isto não é perigoso para si, fazer viagens fora da Uber?
– É, é. Ora imagine lá você que alguém me denuncia à Uber: fico sem trabalho na hora! Mas até agora não tive problemas.
– E a polícia, incomoda-o muito?
– Bem, se a polícia me perguntar o porquê de você ir no banco de trás, digo que estou a dar boleia a um amigo, e que só vai aí porque lhe doem as costas. E doem, não doem?… [Risos] Não é crime dar boleia a um amigo.
(...)

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