[ Director: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano X

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A Fátima brasileira apareceu há 300 anos no fundo de um rio


Segunda-Feira - 08 de maio de 2017
 Fundado em 29 de dezembro de 1864
07.MAIO.2017

Nossa Senhora de Aparecida faz milagres desde 1717, quando pescadores a encontraram nas águas do Paraíba do Sul. É o maior templo mariano mundial e atrai milhões de peregrinos, o que equivale a milhões de reais

Na Sala de Promessas do santuário de Nossa Senhora de Aparecida, o senhor Otávio, 84 anos, morador da longínqua (a 700 quilómetros) Araçatuba, estica as pernas na cadeira de rodas antes de anunciar, com uma expressão grave, que depois de 33 anos seguidos não voltará a visitar o templo. "Com a minha saúde neste estado, será certamente a última vez." Renato, o filho de 57 anos que empurra a cadeira, estraga a solenidade do momento: "Desde, pelo menos, 1998 que ele diz a mesma coisa." Mas Otávio parece não o ouvir e sentencia: "A última tinha de ser esta, nos 300 anos da aparição dela."

De facto, a padroeira do Brasil apareceu a 12 de outubro, feriado nacional desde 1980, do ano de 1717. Num relato que lembra o milagre bíblico da multiplicação dos peixes, três pescadores, Filipe Pedroso, Domingos Garcia e João Alves, lançaram-se ao rio Paraíba a fim de pescar o jantar de homenagem ao conde de Assumar, nomeado pela Coroa portuguesa como terceiro governador da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, de visita por aqueles dias à cidade de Guaratinguetá. Lançada a rede, em vez de peixes surgiu o corpo, sem a cabeça, de uma imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição. Lançada a rede novamente, veio a cabeça. A partir daí, apesar de ser época baixa no Paraíba, a pescaria foi de tal ordem que quase afundou o barco com o peso.

A imagem, de meros 36 centímetros e negra pela exposição à água e à luz de velas durante séculos, tornou-se alvo de devoção pelos séculos seguintes. Um dia, o escravo Zacarias pediu autorização para rezar em frente à santa e as correntes dos seus pulsos soltaram-se milagrosamente. Um cavaleiro zombou da imagem e tentou invadir o santuário, caindo do cavalo, sem explicação aparente. Uma menina cega de nascença viajou com a mãe até Aparecida quando exclamou "mãe, como é linda esta igreja", sinal de que estava curada. Além dos milagres históricos, há milagres quotidianos, particulares, anónimos.

"Remédio nenhum, médico nenhum, tratamento nenhum me tirou a dor que sentia no joelho, pois Nossa Senhora de Aparecida tirou-ma", conta Maria Corrêa, que com mais 46 fiéis viajou de Uniflor, pequena cidade do estado do Paraná, até ao santuário, num total de 26 horas, ida e volta. "Cansada? É o dia em que me sinto com mais energia do ano, quando nos começamos a aproximar de Aparecida e vemos o santuário ao fundo sente-se qualquer coisa inexplicável", diz a amiga Mariete Pereira, devota da santa desde que nasceu, há 61 anos. A aproximação ao santuário não apenas se sente, como se nota nos títulos e subtítulos das casas comerciais junto à estrada, dezenas de quilómetros antes do templo - Grande Hotel do Papa, Restaurante Sabor & Fé, Hotel da Mãe Aparecida (com TV, ventilador e wi-fi), Hotel João Paulo II (com frigobar), Ótica Aparecida (fazemos milagres nos seus olhos), Lavanderia Capital da Fé, Churrascaria dos Apóstolos e por aí adiante num frenesim comercial que movimenta 400 milhões de euros por ano e alimenta a economia da pequena cidade de Aparecida.
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