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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Construção: Bruxelas quer poupar 7,5 mil milhões com reciclagem

Estima-se que cada cidadão europeu produza anualmente em média duas toneladas de resíduos de construção e demolição.

Se queremos que o setor da construção caminhe num sentido mais sustentável, é necessário, entre outros aspetos, promover a reutilização de materiais na obra. Isto pode ser feito através da colocação de materiais que podem/devem ser reutilizados, ou através da utilização de materiais que já são reciclados e apropriados para utilização.

O setor da construção é aquele que tem maior impacto na economia, correspondendo a cerca de 9,7% do PIB da União Europeia. A construção tem ainda impactos ambientais, quer associados à ocupação e uso do solo, quer associados aos consumos de recursos naturais, de energia e água, como à produção de resíduos e efluentes líquidos. 

De acordo com a Agenda 21 para a Construção Sustentável, durante a fase de construção são consumidos cerca de 50% dos recursos naturais, produzidos mais de 50% dos resíduos, consumida mais de 40% de energia (nos países industrializados, sendo em Portugal cerca de 20% da energia total do país) e produzidas cerca de 30% das emissões de CO2. Já no fim de vida das construções, os números também são interessantes, estima-se que cada cidadão europeu produz anualmente uma média de duas toneladas de resíduos de resíduos de construção e demolição (C&D). Tendo em conta que uma tonelada destes resíduos vale cerca de 10 euros (dependendo do tipo e funcionalidades dos materiais), calcula-se que a UE pode vir a poupar 7,5 mil milhões de euros/ano, graças aos melhoramentos introduzidos ao longo de todo o processo de gestão, reciclagem e reutilização.

Esta preocupação com a reciclagem de resíduos da construção levou a Comissão Europeia a lançar recentemente o Protocolo para a Gestão de Resíduos de Construção e Demolição. Vincent Basuyau, Policy Officer – Sustainable Construction, Comissão Europeia, Direção-Geral do Mercado Interno, da Indústria, do Empreendedorismo e das PME, revela ao Jornal Económico que um dos obstáculos comuns à reciclagem e à reutilização de C&D na UE deve-se à falta de confiança na qualidade dos materiais reciclados.
Há também incertezas sobre o potencial risco para a saúde dos trabalhadores que utilizam materiais C&D reciclados. “Esta falta de confiança reduz a procura de materiais reciclados, o que inibe o desenvolvimento de gestão de infraestruturas e reciclagem de C&D na UE”, admite. O responsável salienta que a melhoria da identificação, separação e recolha de resíduos na fonte é um princípio basilar da gestão de C&D. A identificação de resíduos requer definições claras e inequívocas, e também exige auditorias de pré-demolição de boa qualidade e planos de gestão de resíduos. 

Basuyau garante que, ao longo do processo, a remoção de resíduos perigosos deve cumprir a legislação existente (nacional). Dependendo do Estado-Membro, o tratamento de alguns desses tipos de resíduos, como o amianto, por exemplo, é regulado, enquanto que para outros, nomeadamente o PCB e o PAH, a regulação é menor. “A triagem é importante para aumentar a confiança nos produtos e processos, bem como para reduzir quaisquer impactos ambientais negativos”, assegura. 

Contudo, o membro da CE alerta que é fundamental compreender as limitações da reciclagem: não se podem substituir todos os materiais virgens. Uma taxa de recuperação de 100% só cobriria 20% da nova construção.  Vincent Basuyau adianta ainda que o Protocolo da UE contribuirá para atingir a meta definida na Diretiva Quadro de Resíduos: a reciclagem de 70% dos resíduos C&D até 2020, encerrando o ciclo dos ciclos de vida dos produtos de construção através de uma maior reciclagem e reutilização.

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