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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Investigação. O que está a falhar nas cantinas escolares?


 29.Novembro.2017

Há falta de pessoal, falta de formação, falta de fiscalização e falta de multas. Mais: é possível ter boas refeições nas escolas por menos de 1,5 euros? Os resultados de uma investigação do Observador


“Ração para animais de jardim zoológico.” É assim que o cozinheiro Domingos da Silva e Costa descreve as refeições que, ao longo de cinco anos, preparou para os alunos do Agrupamento de Escolas Monsenhor Elísio de Araújo em Vila Verde, no distrito de Braga. “Cozinhava para crianças dos 4 aos 18 anos, tínhamos infantários. Até me doía a consciência de mandar aquilo para as crianças, escolhia sempre as melhores partes para os mais pequenos… Há colegas que fazem uma comida para a canalha e outra para elas, eu não, eu comia o que fazia. E era o primeiro a provar: se na minha boca não entrasse, não entrava na de mais ninguém”, garante o cozinheiro de 59 anos que, ainda assim, se orgulha de nunca ter provocado uma intoxicação alimentar ao longo de 40 anos “de fogão”.

Entre setembro de 2012 e junho deste ano, trabalhou para a Itau, empresa de restauração coletiva do grupo Trivalor (que detém também a Gertal). Com ambas as empresas a perderem nos concursos deste ano, válidos para o próximo triénio, Domingos Costa deveria ter transitado para a Uniself, a empresa vencedora na zona Norte e também no Alentejo e na região de Lisboa e Vale do Tejo — só na zona Centro este serviço ficou a cargo de outra firma, a ICA.

“As cantinas mudam de concessionário mas os trabalhadores mantêm-se. Os que não são efectivos, são despedidos sempre que há interrupções escolares e no final das aulas e recontratados depois quando elas recomeçam.”


Francisco Figueiredo, do Sindicato de Hotelaria do Norte

“As cantinas mudam de concessionário, mas os trabalhadores mantêm-se. Os que não são efetivos são despedidos sempre que há interrupções escolares e no final das aulas, e recontratados depois quando elas recomeçam. O que está a acontecer com a Uniself é que muitos dos trabalhadores foram empurrados para uma empresa de trabalho temporário, a Multipessoal, e estão com contratos a tempo incerto”, explica ao Observador Francisco Figueiredo, do Sindicato de Hotelaria do Norte.

A passagem de trabalhadores de uma empresa para outra, garantem os líderes sindicais contactados pelo Observador, é “normal” e tem sido supervisionada pelo Ministério do Trabalho. No caso de Domingos da Silva e Costa acabou por não acontecer. Depois de ter tratado de toda a papelada e de ter até fornecido ao departamento de recursos humanos da Uniself o seu número de farda, foi informado, dois dias antes de se apresentar ao serviço, que afinal não iam contratá-lo. “Disseram-me que foi a direção da escola que não me quis lá. Não sei se foi ou não. Eu virava as ementas como podia e muitas vezes me recusei a fazer coisas que achei impróprias. O peixe, por exemplo: queriam mandar-me cação, com aquela cabeça cheia de espinhas, e carapaus. A canalha lá arranja o peixe?! Dizia-lhes que ou me mandavam pescada em condições ou filetes sem espinhas ou não confecionava os pratos. Claro que a empresa não gostava, dava-lhes mais gastos”, refere.

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