[ Director: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano X

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

“Se a nós nos custa comer, o que fará as criancinhas?” O que dizem os funcionários das cantinas

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Alface estragada, peixe e carne de fraca qualidade e funcionários a menos? Ou tudo "uma maravilha"? Cinco funcionários de empresas que servem as escolas contam como é o dia a dia nas cantinas. 

A garantia é dada pelos funcionários das cantinas e refeitórios escolares adjudicados a empresas: uma coisa é aquilo que o Ministério da Educação exige e outra muito diferente é o que acontece na realidade. Uns falam em sopas feitas com fécula de batata, outros em carne e peixe de qualidade questionável.Mas há alguns que asseguram que tudo corre “às mil maravilhas”. Falámos com cinco profissionais das cantinas.
  1. “Até me doía a consciência de mandar aquilo para as crianças”

Domingos da Silva e Costa, cozinheiro de 2.ª, 59 anos

“Trabalhei durante cinco anos como cozinheiro de segunda na Escola E.B. 2.3. Elísio Araújo, em Vila Verde, no distrito de Braga. Trabalhava para outra empresa, quando houve agora a mudança para a Uniself disseram-me que ia ser contratado, tirei o registo criminal, tratei de todos os documentos, disse-lhes qual era o meu número da farda. Dois dias antes de começar, disseram-me que afinal já não ia, que foi a direção da escola que não me quis lá. Não sei se foi ou não. Eu virava as ementas como podia e muitas vezes me recusei a fazer coisas que achei impróprias. O peixe, por exemplo: queriam mandar-me cação, com aquela cabeça cheia de espinhas, e carapaus. A canalha lá arranja o peixe?! Dizia-lhes que ou me mandavam pescada em condições ou filetes sem espinhas ou não confecionava os pratos. Claro que a empresa não gostava, dava-lhes mais gastos.

Sou cozinheiro de cantinas há 40 anos. Trabalhei para a Itau, para a Eurest e antes disso no refeitório da Segurança Social de Braga. Também estive em restaurantes, desde os 18 anos que lido com comida: fiz um curso de cozinha no sindicato, com grandes profissionais, em 1979 ou 1980 fui fazer exame a Lisboa.

A comida que me davam sempre foi de muito má qualidade, era ração para animais de jardim zoológico, a carne de vaca raramente entrava ali dentro, o que havia mais era porco e frango e umas coxas de peru nojentas, que são só sebo.Domingos da Silva e Costa, cozinheiro 

Na escola tratava de tudo: da preparação, da confeção e do pedido de alimentos, do serviço dos pratos, da limpeza. O pessoal que lá está agora não tem formação nenhuma, a maior parte eram costureiras, que trabalhavam em fábricas têxteis que fecharam, e de um momento para o outro estão a preparar refeições para 400 ou 500 crianças, nem sabem descascar uma cebola nem fazer um puxado para um guisado! Mas, claro, para as empresas é melhor, assim podem pagar menos…


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