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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Balsa, a mítica cidade romana à beira da ria Formosa, continua à deriva

 

25.Janeiro.2018
Tavira

A zona de protecção do sítio arqueológico está publicada, mas as restrições ao urbanismo não estão ainda definidas. Os investigadores apresentaram um anteprojecto para salvaguardar o que resta do património.

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Olhando em redor, mal se adivinha a riqueza patrimonial que ali se esconde. Quando se caminha na Luz de Tavira, junto à ria Formosa, há um mundo por desvendar debaixo do chão — é Balsa, a mítica cidade romana. “Nós, arqueológos, falamos de coisas que não se vê e o discurso fica difícil”, admite Vítor Silva Dias, responsável pela equipa de investigação que, no Verão passado, radiografou o “coração” da urbe, que tem estado à mercê dos caçadores de tesouros. As últimas escavações comprovaram a necessidade de continuar a desbravar o terreno do (des)conhecimento.

A Quinta da Torre d’Aires, onde há dois anos foi autorizada a implantação de uma grande superfície de estufas (que acabaram por não avançar, pois os proprietários passaram à dedicar-se à produção de plantas aromáticas), é o sítio onde se encontra o fórum (praça pública) de Balsa. As últimas prospecções arqueológicas detectaram a “eventual” existência de um templo ainda por descobrir. “Desde os bancos da faculdade de Coimbra que ouço falar de Balsa como uma cidade mítica”, disse Vítor Dias no Centro de Ciência Viva de Tavira durante a apresentação de uma proposta para resgatar a memória da cidade romana, cujas origens, presume-se, recuam ao século I antes de Cristo.

O especialista em arqueologia romana João Pedro Bernardes, da Universidade do Algarve (Ualg), adiantou que estão sinalizadas duas bases de estátuas, que estariam no fórum, e que irão ser levadas para o museu de Tavira. “Muito se tem escrito sobre Balsa, mas pouco se sabe sobre Balsa.” Na verdade, acrescentou, “muito do que se tem escrito é muito ficcionado”.

A comunidade científica tem os olhos postos neste lugar, onde já foram recolhidos materiais que constituem a reserva e mostra principal do Museu Nacional de Arqueologia. “Apesar ter sido muito afectada, muito destruída, a cidade ainda tem uma área relativamente extensa que se preserva”, sintetizou João Pedro Bernardes. E adiantou: “Há uma universidade espanhola e outra alemã que estariam interessadas, se lhes fosse feito o convite, para virem amanhã para aqui trabalhar.” Este professor do Departamento de História Arqueologia e Património da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Ualg prestou, nos últimos dois anos, consultoria científica ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido para que sejam tomadas medidas de salvaguarda do património. O Ano Europeu do Património Cultural, que se comemora, e a Convenção de Faro — assinada em Outubro de 2005 por iniciativa de Guilherme d’Oliveira Martins para reforçar as políticas públicas de cultura, ao nível do Conselho da Europa — são instrumentos que servem de apelo ao envolvimento da comunidade. Dos parceiros aderentes ao projecto arqueológico, destaca-se a Lais de Guia — Associação Cultural do Património Marítimo e o Centro de Ciência Viva de Tavira.
Caça ao tesouro
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