Portugal, S.A.
“Tudo por Portugal, S.A., nada contra Portugal, S.A.!”
Sabe-se de “fonte segura” que há negociações para nova – e talvez definitiva – revisão da Constituição da República.E parece haver sido alcançado o consenso de base que permita atingir na substância a Grundnorm.
Os artigos 1.º e 2.º do Texto Fundamental, que ora vigem (como, e bem, dizem os brasileiros, do verbo “viger”), reduzem-se a estes quadros gramaticais caídos em desuso:
Princípios fundamentaisArtigo1.º(República Portuguesa)Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.Artigo2.º(Estado de direito democrático)A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.
Para que o direito fique de harmonia com a realidade, é mister apontar o caminho da revisão.
Tendo em vista o emaranhado de impostos “decretados” pelos serviços e empresas de distribuição de águas, pelo regulador energético de mãos dadas com as empresas de distribuição de energia eléctrica, como de telecomunicações, a profusão de quotas, taxas, tarifas, termos e montantes outros crismados ou não com base em estranhas nomenclaturas – como é inesgotável a paciência dos consumidores… que até são excelentemente “tutelados” por pretensas associações que em seu nome se enfeudam aos monopólios de facto de serviços essenciais! -, a revisão pode ter por base textos do estilo:
Artigo 1.º“Portugal é uma mega empresa, baseada na dignidade das empresas menores e na vontade dos reguladores mancomunados com as suas administrações e empenhada na construção de uma sociedade submissa, ao serviço de altos desígnios mercantis, e, nessa medida, justa e solidária”(“O que for bom para a Portugal, S.A., é bom para o Mundo”)
Artigo 2.º“A Empresa Portuguesa – Portugal, S.A. - é uma estrutura de direito autocrático, baseado na soberania da sua administração todo-poderosa, na restrição de qualquer expressão e numa organização empresarial autocrática, no respeito e na garantia de efectivação dos seus direitos e liberdades fundamentais em ordem à consecução do seu sumo interesse e na absorção e dependência dos interesses dos portugueses e dos mais, visando a realização de superlativas vantagens económicas, sociais e culturais e
o aprofundamento da exploração dos seus accionistas.”
A principal obrigação dos accionistas traduz-se na sua contribuição irrestrita e imposta para a massa social, de forma contínua, ininterrupta, incontestada e disponível, sem direito a voto nem a dividendos, visando a satisfação integral da vontade dos gestores e os superiores interesses das empresas.
As taxas de disponibilidade (as legais, claro!, que há quem insinue que há por aí umas ilegais, fruto de uma mal avisada conversão do aluguel dos hidrómetros em taxas…, como o sustentam em círculos bem frequentados uns diletantes e divertidos rapazes que dão agora os primeiros passos na controvertida arte do juridiquês), as taxas da reposição dos indébitos, as taxas da medida da qualidade da água, as taxas dos recursos hídricos por imposição da Torre de Babel, as energéticas taxas dos renováveis, as taxas constantes (de Constâncio… ou de Bizâncio…) do nuclear, as taxas de potência, as taxas de impotência, as taxas de remoção da alta tensão, as taxas de passagem subterrânea das LAT, as taxas da substituição dos fios de cobre, as taxas dos direitos de passagem, as de substituição dos contadores subtraídos por coleccionadores de velharias, as quotas de serviço, as taxas de manutenção do statu quo, enfim, e para abreviar, que o ementário é extenso e interminável, as tarifas da p.q.p (pauta quantificável de produtos) que é, afinal, a triste sina de ser consumidor em Portugal sob os egrégios fados desta incontestável “democracia económica”…
O parágrafo precedente é tão transparente quanto as facturas dos serviços públicos essenciais. Mas não estranhe: é deliberado!
“Tudo por Portugal, S.A., nada contra Portugal, S.A.!”












