[ Diretor: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano XII
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Cientistas alertam para níveis potencialmente tóxicos de metais nos vinhos comerciais

Dois investigadores publicam hoje um estudo preliminar sobre 15 países, incluindo Portugal.
Pretendem lançar o debate sobre os poluentes do vinho.


Beba um a dois copos de vinho tinto por dia e os seus efeitos antioxidantes protegê-lo-ão do cancro e das doenças cardiovasculares. Os benefícios do vinho tinto já são conhecidos e têm vindo a ser confirmados pela investigação científica. Sim, mas... respondem dois investigadores da Universidade de Kingston, Reino Unido, num estudo hoje tornado público. Essas benesses podem ser neutralizadas pela presença no vinho de diversos metais em quantidades potencialmente tóxicas.
Declan Naughton e Andrea Petroczi, que assinam um artigo na revista online de acesso livre Chemistry Central Journal, partiram das medições feitas noutros estudos, em 15 países, dos teores de sete metais em diversos vinhos: vanádio, manganésio, níquel, zinco, cobre, cromo e chumbo. A partir daí, calcularam os níveis de risco potencial para a saúde associados à ingestão de um copo de 25 centilitros de vinho por dia ao longo da vida adulta.
Embora pequenas quantidades de iões metálicos como o ferro ou o cobre sejam essenciais ao funcionamento do organismo, explicam, a sua ingestão em excesso tem sido associada ao stress oxidativo, possível causa de cancro e envelhecimento prematuro. O índice de risco aqui utilizado – o THQ (target hazard quotient) – foi desenvolvido pela Agência de Protecção do Ambiente dos EUA e tem em conta os limites máximos de exposição aceitáveis aos poluentes, a esperança de vida ou o peso corporal, para avaliar o risco de exposição a níveis potencialmente tóxicos. Quando é inferior a 1, não há risco.
“À excepção dos vinhos seleccionados na Argentina, Brasil e Itália”, escrevem, “todos os outros apresentavam valores significativamente superiores a 1 (...), com os níveis de vanádio, cobre e manganésio a ter o maior impacto no THQ global de cada país.” Os piores vinhos da amostragem?
Os húngaros e os eslovacos, com máximos de risco a atingir 300.
“Os valores de quase todos os países são preocupantes”, disse Naughton ao PÚBLICO, admitindo, porém, que se trata de “resultados preliminares”, e que é preciso alargar a amostragem em análise e ainda “fazer o balanço entre os efeitos antioxidantes do vinho e os efeitos oxidantes dos metais”.
O que pretendem com o estudo, acrescenta, é “lançar o debate”. Para Portugal, o risco calculado pelos investigadores está principalmente ligado ao vanádio (proveniente da atmosfera, do aço das cubas, do vidro das garrafas e da bentonite, substância mineral utilizada no processamento do vinho) e situa-se entre 80 e 120 para os homens e entre 100 e 145 para as mulheres.
Então, será que beber um pouco de vinho português por dia põe em risco a nossa saúde? António Curvelo Garcia, investigador coordenador da Estação Vitivinícola Nacional em
Dois Portos, tem sérias dúvidas em relação à amostragem dos vinhos.
Contactado pelo PÚBLICO, responde: “Para se poder dizer que ‘os vinhos do país x têm valores do constituinte y elevados, baixos, etc...’, tem de ser referida a base de amostragem. Já encontrei artigos de elevado valor científico em que a base de amostragem eram três vinhos por país, adquiridos num supermercado. É evidente que não será uma amostra credível.” E acrescenta: “Internacionalmente, um esforço enorme tem sido feito para eliminar metais como o chumbo”, cujos níveis passaram de 0,5mg/l para 0,2 e mesmo 0,1mg/l nos últimos dez a 15 anos graças em particular à eliminação das cápsulas de chumbo das garrafas. Quanto ao vanádio, salienta, os dados são escassos. “Os vinhos portugueses não constituem qualquer problema para a saúde”, conclui.

Ana Gerschenfeld
In “Público”, 30.Out.008