Gripe A acampou entre dois mil escuteiros reunidos em Arganil. Autoridades encararam o problema com preocupação, mas a ironia acabou por vencer.
No bar do acampamento, os escuteiros adultos bebem "minis", mas não esquecem que gripe tem origem suína. "Contactámos com um leitão vivo durante dois dias, quatro leitões mortos durante breves segundos, todos provenientes de zona de risco: Bairrada! Queremos Tamiflu", ironiza o cartaz afixado no bar, depois de confirmados três casos de gripe A (H1N1), a meio do XII Acampamento Regional de Coimbra, que juntou dois mil escuteiros, entre segunda-feira da semana passada e ontem, em Arganil.
A tónica do cartaz, a desdramatizar o problema, parece ter contagiado todo o acampamento, na sombra de um choupal do rio Alva. Os próprios escuteiros do Grupo de Montes Claros (Coimbra), que têm entre 10 e 14 anos e mantiveram contactos próximos com as duas colegas e a monitora infectadas, riem-se da sua situação em grande algazarra, quando o JN se aproxima e percebem ser o centro das atenções.
"Eu sou forte!", dispara uma das crianças, flectindo os braços franzinos, de punhos cerrados e peito feito, quando lhe é perguntado se não ganhou medo ao ver adoecerem duas colegas de 10 e 13 anos com quem dividia a tenda, e a sua monitora, de 33. A irreverência é logo imitada por outra menina, que desafia a gripe A: "Ela que venha!". "Nós continuámos as nossas actividades", acrescenta, antes de um colega dizer que o problema está no sabor do Tamiflu. "É horrível", exclama, com uma careta, sobre o medicamento usado na prevenção e tratamento da estirpe.
António Cardoso, médico e escuteiro que passou a semana no acampamento, explica o drama vivido pela meia centena colocada sob "vigilância activa", por causa dos contactos com os engripados: "O desespero deles era terem de ir para casa", diz, sobre o Grupo de Montes Claros e mais três dezenas de jovens que partilharam um autocarro.
Tamiflu em "shot"
A hipótese do regresso precoce a casa foi ponderada, mas rejeitada, quando confirmado o primeiro caso de gripe A, na quinta-feira, da escuteira que acabara de chegar dos EUA. "
Tínhamos um plano de contingência", justifica o chefe do acampamento,
Vítor Fernandes. Além disso, acrescenta o autor do plano, António Cardoso, "
o tempo quente e seco ajudou à evaporação das gotículas [salivares e nasais]", via principal do contágio da doença, e as actividades eram ao ar livre.
Mas, como sublinha
António Cardoso, Portugal ainda não assistira a um ajuntamento tão grande e prolongado no tempo, com confirmação de infecções pelo meio. De resto, a delicadeza da situação mobilizou três delegados de saúde e um vogal da Administração Regional de Saúde, que acelerou a entrega do Tamiflu em pó, guardado num quartel militar de Coimbra, que as crianças diluíam em água e tomavam "como um shot", conta Cardoso.
O chefe do acampamento diz que essa atenção também levou a que "
nenhum pai viesse buscar miúdos". "
Confiámos", justifica-se João Oliveira. Outro pai presente no encerramento do acampamento,
Vítor Monteiro, diz que "
a organização lidou bem com o problema".
Mas esta, apesar de católica, não faz milagres. E o mais provável é que outros escuteiros adoeçam, por estes dias. O que pode até nem ser mau, caso o Outono traga confusão aos hospitais, como receia
Gina Fidalgo. "
Se a minha filha tiver que apanhar a gripe, que apanhe agora", conclui esta mãe, que só ontem foi buscar a sua criança ao acampamento.
NELSON MORAIS, in “Jornal de Notícias” - 10.Ago.09
Publicado por: Jorge Frota