Bandeiras dos Brics: Até os russos, afetados por sanções dos EUA e da Europa
tiveram desempenho melhor
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Rio e São Paulo - O Brasil teve o pior desempenho entre os
países do grupo
Brics - que conta
ainda com Rússia, Índia, China e África do Sul - no segundo trimestre deste ano,
sendo o único dentre essas grandes
economias
emergentes em recessão técnica.
Até
mesmo os russos, afetados pelas sanções impostas por Estados Unidos e Europa em
função da crise na Ucrânia, conseguiram evitar dois trimestres seguidos de queda
no
PIB.
Índia
A trajetória de desempenho fraco pode antecipar a destituição do Brasil do
posto de sétima maior economia do mundo. De acordo com o Fundo Monetário
Internacional (FMI), a Índia deve ultrapassar o País em termos de PIB em
2018.
"Mas isso considera projeções otimistas, então pode acontecer antes",
disse Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, apostando que ocorra
em 2017. Hoje, a Índia figura na 10ª colocação.
O FMI projeta crescimento de
1,3% para a economia brasileira em 2014 e de 2,0% em 2015, conforme o relatório
Perspectiva Econômica Global atualizado em julho. O economista, contudo,
considera esses resultados irrealizáveis. Ele projeta avanço de 0,2% neste ano e
de 1,0% no ano que vem. A Índia, por sua vez, deve expandir 5,4%, acelerando
para 6,4% em 2015, segundo o FMI.
"O Brasil de fato mudou de rumo. Isso
reflete a falta de visão de médio e longo prazo. As medidas adotadas pelo País
foram míopes, no sentido de ter um crescimento puxado por muito consumo e pouco
investimento", avaliou Rostagno. "O governo esqueceu de preparar o País para o
futuro", completou o economista.
Estados Unidos
No segundo
trimestre, o crescimento da economia brasileira também ficou atrás de Estados
Unidos, Alemanha e Itália (que teve recuo de 0,2% em relação a igual período de
2013), país ainda fragilizado pela crise na zona do euro e pela ausência de
reformas.
No mesmo período, o PIB brasileiro registrou queda de
0,9%.
"Isso mostra que o Brasil sofre mais com questões internas. Nossas
exportações contribuíram positivamente", afirmou Rostagno, que levantou os dados
a pedido do Estado.
Segundo ele, os crescimentos da China (7,5%) e dos
Estados Unidos (2,5%) no segundo trimestre em relação a igual período de 2013
reforçam que as dificuldades brasileiras são no plano doméstico. "Os Estados
Unidos tiveram um primeiro trimestre ruim, mas foi por causa do clima",
disse.
Ucrânia
Em outro levantamento, a Austin Rating listou o
desempenho de 37 países, e o Brasil superou apenas a Ucrânia, que enfrentou
queda de 4,7% no segundo trimestre em comparação a igual período do ano
passado.
A Ucrânia está em conflito com a Rússia, acusada de invasão
territorial e de fornecer armas e suprimentos a rebeldes
separatistas.
Setor externo
O setor externo salvou o PIB brasileiro
de registrar um recuo ainda mais intenso no segundo trimestre. De acordo com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as exportações cresceram
2,8% em relação aos três primeiros meses do ano, enquanto as importações caíram
2,1%.
"Mas é um positivo por razões negativas. A queda nas importações se deu
porque a demanda do mercado interno está se retraindo", observou José Augusto de
Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). "Isso é
determinado principalmente pela indústria, que está reduzindo compras de insumos
e componentes", acrescentou Castro.
Importações. Diante do elevado
endividamento e da renda crescendo menos, os consumidores acompanham o movimento
de moderação nas compras, o que também ajuda a reduzir as importações.
Do
lado das exportações, os embarques de soja garantiram o bom desempenho. "O setor
extrativo mineral também está crescendo muito", observou Rebeca Palis, gerente
de Contas Nacionais do IBGE.
Para o terceiro trimestre, as exportações devem
continuar crescendo, ainda que num ritmo mais tímido. A "vedete" da vez, disse
Castro, será o petróleo, cujos embarques devem crescer na esteira da recuperação
na produção. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.