[ Diretor: Mário Frota [ Coordenador Editorial: José Carlos Fernandes Pereira [ Fundado em 30-11-1999 [ Edição III [ Ano XII

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O menino do Namibe


Era um rapaz de família modesta.

Concluído o ensino primário, fizera a admissão à escola de Pesca (que se substituía em meios menos afortunados ao liceu).

Que o liceu era para os privilegiados. Havia que subir aos contrafortes da Chela, assegurar a instalação em condições onerosas no Lubango (mais tarde Sá a Bandeira para - pós-independência - tornar ao topónimo original).

Ensaiava com dificuldade os primeiros anos de escolaridade no secundário com uma patente desmotivação e com uma desapontante reprovação. Os professores conversaram com o pai. Que a criança era apoucada. Que nada devia à inteligência. Que mais apropriado fora oferecer-lhe um curso prático, ao jeito dos preleccionados nas escolas de artes e ofícios ou, no limite, na de capatazes agrícolas que no planalto da Huíla se abria a coeficientes de inteligência do estilo, mais à guisa das tarefas reservadas aos trabalhadores braçais ou pouco menos. Com a vantagem de o curso ser gratuito e o regime de internato - imposto pelas distâncias - assegurado sem dispêndios.

O pai que aspirava, ao menos, que o seu filho varão pudesse concluir com êxito a Escola de Pesca e Comércio que garantia as habilitações mais destacadas do meio, conforma-se à austera sentença dos pedagogos.

Nem todos podem ser inteligentes. Nem todos podem aspirar a posições de destaque, que só se atingiam, na óptica do tempo, pelo mérito. Nem sempre, mas …Ter-se-ia de conformar com os desígnios da Providência. Que o brindara com o menor dos males – o filho era “perfeito”, mas destituído de inteligência, como se dizia in illo tempore…

Colhidos os informes da praxe, feito o enxoval mínimo para que pudesse resistir às exigências de um curso de prático agrícola, calções de sorrobeco, bota alta, e o mais que apropriado seria e lá se aperaltava o apoucado jovem para, apartando-se cedo do modesto mas seguro ambiente do lar paterno, correr a novas aventuras. Que a vida já de si é uma aventura… para ousados!

E, no início do ano escolar subsequente que, atentos os rigores do clima e sem cedências, era lá para os primeiros dias de Abril, numa concessão às especificidades locais, lá rumavam com o credo na boca planalto acima num “cama-couve” dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, via por excelência de ligação do litoral ao interior.
Não mais soube do jovem.

Antevia-o como capataz agrícola, transportado para as fazendas de café do norte ou para as explorações de gado vacum no imenso Sul de Angola.

A vida separara-nos.

A transferência do pai no quadro da função pública a que se atinha, obrigara a um distanciamento insuperável: “Quem não aparece, esquece!”

A vida prosseguia, porém, em toada de relativa tranquilidade nos anos sessenta. Angola acordara do torpor e a convulsão gerada pelo conflito armado não permitira eventual reencontro. Nem sequer nas fileiras, onde as gerações medidas pela data de nascimento se reencontravam para ir às “sortes” e cumprir os seus deveres com a nação….

Angola regenerara-se.

O conflito perdera a intensidade original.

Angola despontava para um progresso económico e social notável no final dos anos sessenta, começo da década que se seguira.

Com os acontecimentos de Lisboa, precipitou-se em 74/75 o êxodo, num processo de abandono sem precedentes em África, mau grado o que o Congo Belga, com a outorga da independência, experimentara às mãos das ordas de Patrice Lumumba.
As famílias fragmentaram-se, o desenraizamento consumou-se, as comunidades pulverizaram-se. E nem dos mais próximos havia - quantas vezes! - notícias.

A dispersão permitiu que famílias inteiras se disseminassem pelos cinco continentes – houve quem se tivesse refugiado na África do Sul, quem se dispusesse a demandar o Brasil, quem houvesse logrado exílio nos Estados Unidos e no Canadá, ou quem houvesse rumado à Europa, para além de “retornar” a Portugal, como quem tivesse pretendido a distante Oceânia …

O desmembramento das famílias foi a tónica, a despeito de substancial número se haver concentrado em Portugal, em aproveitamento do “gesto de magnanimidade” da Rússia e dos Estados Unidos, “secundado” pela ponte aérea promovida atabalhoadamente por um Portugal em desorientação completa…

Os anos escoaram-se.

Na vertigem do tempo, mais de meio século transcorrera.

No verão incaracterístico que ora se vive, obrigações laborais levaram o jovem dos anos cinquenta (que em Moçâmedes se mantivera e se refugiara em Portugal após tamanha catástrofe) a Cascais.

Já no restaurante, em posição estratégica, surpreendera-se pela entrada de um cavalheiro de porte altaneiro, traços definidos, ar distinto. Mas algo lhe dizia que naquele rosto se escondia algo de familiar.

Num esforço de memória, não conseguiu entrevê-lo com nitidez no seu álbum de recordações.

Os olhares cruzaram-se. E no fácies do estranho (?!) como que um outro rosto se desenhara, nas proporções adequadas do tempo.

E, como que num impulso, precipitou-se sobre o recém-chegado:
- Tenho a vaga sensação de que o conheço.
- Talvez. Tantos os lugares. Tantas as circunstâncias …
- Será de Moçâmedes?
- Onde é que isso já vai…
- Escola de Pesca?
- Sim …
- Mas tu és o …!

E caíram nos braços um do outro.

Houve logo que alterar os planos para o almoço. E o rosário de recordações começou a desfiar-se…
- É facto: estive na Escola de Capatazes Agrícolas, no Tchivinguiro.

E as revelações, de todo surpreendentes, vieram à tona.

É facto que se não havia adaptado nem às disciplinas nem à disciplina da Escola de Pesca. As matérias - enfadonhas para a sua sensibilidade. Menor empatia com os mestres. Um desapontamento permanente.

Uma inadaptação flagrante, que nada faria superar, que nada redimiria.

A trasladação para o Planalto, porém, fora profícua.

Ao invés, o clima era propício ao estudo da teoria (rudimentar) que, ante a essência do curso, se aliava à prática, em permanente apelo ao engenho, à criatividade, à conformação das técnicas às concretas situações que se lhes deparariam no campo.

O ambiente era viril. Seria, como ora se usa dizer, para “homens de barba rija”… E, afinal, de tenros meninos se tratava, desmamados alguns, com os cueiros por tirar, outros.

O campo impunha uma certa rudeza. Temperada por um sem-número de actividades culturais complementares, a que um razoável acervo bibliográfico emprestava o tom.

A leitura era um refúgio. Quem lê, vê mais longe, enxerga mais.

Estrutura os próprios horizontes de forma distinta.

A informação não se acha, como ora sucede, ao alcance de um dedo: um mero digitar de uma tecla e o mundo a revelar-se perante a curiosidade que nos impele, nos move, nos projecta.

Nem cinema nem, nos longes de África, a televisão que mal balbuciava no Continente (na Europa) as primeiras palavras.

À cultura física aliava-se uma permanente sede de franquear outras portas, outros acessos.

Ao ensino de carácter eminentemente prático associava-se a praxis, uma sorte de saber de experiência feito ou de experiências que poriam à prova saberes que as folhas áridas dos livros transmitiam de forma menos aliciante.

Concluído o curso de capatazes sem dor, antes com um enorme entusiasmo, por que estagnar? Porque ceder perante o fascínio de propostas, humildes embora nos números de que se ornavam, mas suficientemente atractivas a qualquer outro que saciaria as suas ambições em horizontes estreitados?

Superada a prova de barreiras, mister seria aceitar desafios outros, quiçá mais exigentes. Na tónica, afinal, do que até então - e de forma elementar - se ensaiara.

Dois anos eram insignificantes para quem, afinal, estaria a beirar os 14 anos, uma adolescência vivida e com muito por viver.

Não se olvide que essa era a idade núbil, a que se considerava, pelas leis da natureza, que distintos ordenamentos contemplavam, como “madura” para o casamento.
Pelo direito canónico, a mulher atingia essa meta aos 12 anos.

No entanto, um estatuto de adultez psicológica adquirido em circunstâncias tais não deveria fazer perigar as opções.

O conselho oportuno de professores sempre presentes que não absorventes, talvez haja propiciado o mais.

E, em correspondência para a família antes do termo do ano escolar, anunciaria – para estupefacção dos mais - que ingressaria, no subsequente, no curso de regentes agrícolas.

O curso de regentes agrícolas conferiria, ao tempo, equivalência ao curso geral dos liceus - o liceu sempre como medida-padrão… meta inalcançável de tantos, que só os anos sessenta trariam com mais abundância após as reformas do almirante Lopes Alves.

Ora, nas circunstâncias do tempo - em que uma quarta classe era uma extraordinária ferramenta para a vida, um autêntico curso superior, passe o exagero, ante a limitação dos horizontes, dos saberes e dos recursos à época - possuir como habilitações algo equivalente ao curso geral dos liceus (o nono ano de escolaridade por correspondência com as tabelas actuais) representaria a algo de considerável.

Tanto mais que o sujeito de que se trata havia sido qualificado, pelas tábuas de medir dos professores da Escola de Pesca e Comércio, como um rapaz descapacitado, de menor inteligência, com limitações manifestas, incapaz de assimilar uma letra do tamanho de um boi.

E se bem se decidira, melhor afrontara as exigências de um curso multipolar com características tecnicizantes próprias. E um grau de exigência muito superior ao limitante curso rudimentar de capatazes agrícolas.

A família teve de investir em novo enxoval, tais as condicionantes da formação que encetava.

E, depois de um verão excitante em que por cenário tinha a Praia das Miragens (ainda com os toldos colectivos com cobertura a caniço e os alteados postes que o recurso aos carris dos caminhos de ferro emprestava um ar grotesco), lá abalara de novo para as altaneiras terras da Huíla, a fim de se expor às duras provações de um curso que andava de braço dado com as tarefas rudes da terra e as renúncias que o isolamento imporia, mau grado o contacto permanente com a natureza, por vezes inóspita, tantas vezes madrasta ante as sujeições às pragas, às doenças tropicais e a condições ásperas de vida.

Quem desfruta hoje em dia de condições outras, dificilmente imaginará o que foi o curso de vida de quem tinha o mato por pátria e as carências como estímulo à resistência, à afirmação de domínio por sobre as hostilidades com que o quotidiano presenteava o ser humano.

E a formação, com graus de dificuldade variáveis ante os condicionalismos do tempo, processou-se com regularidade, a que qualquer espírito medianamente dotado corresponderia sem objecções de qualquer ordem.

Os anos sucederam-se.

A formação cumprira-se com laivos de brilhantismo, acrescentaremos nós.

Que o interlocutor, por razões de modéstia, se não atrevera a manifestar.

E ao curso de regentes agrícolas (que mais tarde passara a proporcionar aos seus detentores o grau de engenheiros-técnicos agrários quando as escolas, de ensino médio, se transformaram em superiores, com a inteira equiparação dos titulares das habilitações de pretérito), sucederam-se as “paralelas” que, ao tempo, corresponderiam ao curso complementar dos liceus, isto é, ao antigo 7º ano (11º de escolaridade pelas contas de hoje, mas como ano terminal dos estudos secundários, para os que não saibam).

E com enorme brilhantismo, o menino do Namibe concluira as “paralelas” com dispensa da “aptidão à Universidade”. Com classificações notáveis. O apoucado, o destituído, o descapacitado…

Em meio à narrativa, o colega distante que o reencontrava em circunstâncias tais, interrompera-o para - em jeito de ironia - lhe dizer: mas nós, meninos do Namibe, éramos conhecidos por termos uma memória de eleição, privilegiada, já que a alimentação-base era o peixe - de espécies variadas, mas do célebre “cachucho” que se vendia na “praça do peixe”, em lugar escavado nas furnas (na lota, que não tinha esse nome), ali para as bandas da Torre do Tombo, a cinco tostões o quilo e que era, afinal, o prato preferencial de gente de toda e qualquer condição.

E a narrativa prossegue.

Ao termo das paralelas correspondera a criação no Huambo da Faculdade de Agronomia., nos Estudos Gerais de Angola criados pelo General Venâncio Deslandes e pelo ministro Adriano Moreira, com notável retardamento ante as necessidades específicas do território. E, sem surpresa, demandara a capital do Huambo para aí prosseguir os seus estudos.

Fizera-o de modo brilhante. Mas, influenciado sabe Deus por quem, propusera-se, de molde a dispor de um canudo com efectivo reconhecimento, no termo do terceiro ano, prosseguir a sua formação na então Metrópole, no Instituto Superior da Agronomia, à Tapada da Ajuda.

Unânime era a convicção de que as notas conferidas em Angola estariam naturalmente inflacionadas. O que de todo as provas prestadas sequencialmente infirmavam. Ensino exigente, ensino de qualidade, classificações ajustadas à natureza específica da metodologia seguida, pelo recurso à simbiose teoria-prática, em reconhecimento pelo esforço de discípulos modelares cuja sede de saber era inesgotável. A disponibilidade inteira dos mestres de mão cheia que elegeram a África como campo experimental dos seus excelsos curricula, constituíra um plus susceptível de contradistinguir os beneficiários desse ingente esforço. Do esforço desse escol de pioneiros que jamais obtiveram - na voragem dos acontecimentos e nos esquecimentos de uma nação caracterizada por sua memória curta – a gratidão das instituições por haverem doado a África a sua capacidade, o seu engenho e arte, em provas de dedicação ímpar que se espelhou nos excelentes quadros que formaram e se impuseram um pouco por toda a parte.

A mundividência que revelara – nas duras provações do Tchivinguiro e nas luzes da florescente capital do Huambo – cedo se apresentara como um bordão para uma adaptação sem história.

Os horizontes de África não se conformavam, por vezes, aos quadros estreitos que se moldavam num rincão com características diferentes, a que a dimensão do tempo e do espaço conferia um não sei quê de estreitamento.

Mas o que se lhe deparava de distinto não fora susceptível de atemorizar um espírito forjado em condições-limite, a que a escola do Tchivinguiro emprestara a suficiente couraça para os embates que a vida reservasse a quem quer que fosse.

E as expectativas dos mais de que soçobraria perante um hipotético maior grau de exigência na Ajuda não se confirmaram.

Obstáculo poderiam ser os invernos rigorosos ante a amenidade do clima da Huíla e a experiência nos trópicos que vivera até depois dos vinte.
Mas a um espírito – cujas agruras de uma vida dura conferiram os alicerces para se resistir também às intempéries naturais – nada amedronta e a tudo se reage a contento.
E o menino do Namibe a que se augurava uma vida tranquila como capataz agrícola nos longes de África, vencido o primeiro dos dois anos que se propusera trilhar em Lisboa, encimava já o quadro de honra. Quadro de honra que os avaros tempos da rasoira revolucionária, avessos ao mérito, fariam precipitar em queda no nivelador Abril a que o brilho das estrelas ofuscava na mediocridade pungente de que se exornavam.

E em um ano mais - com a conclusão do curso superior de Agronomia com as classificações mais elevadas - como que se regenerara o perfil do jovem destituído de capacidade a quem mestres pedagogicamente menos dotados e psicologicamente impreparados vaticinaram um ignoto devir entre o Caramulo e o Munhino, como auxiliar das explorações agro-pecuárias que ali floresciam ou então como capataz em sentido próprio nas fazendas de um qualquer cafeicultor do centro ou do norte do território.

Haurido o diploma, reconhecido o mérito (difundidos nomen, tratatum et fama :o nome, o tratamento e a fama), oportuno convite lhe dirigiram os mentores da Agronomia em Angola para um lugar docente em área de particular exigência científica.

O retorno a penates com que lhe acenaram, constituiria o alicerce de um novo ciclo na sua vida, de devoção à ciência, à cultura, à pedagogia.

Prosseguira de forma indómita a sua formação, a investigação passara a dominar os seus dias e as longas noites subtraídas ao repouso.

Aliava o desporto, como antídoto ao sedentarismo, ao extremo labor intelectual.

A estrutura de base era o seu certificado de capataz agrícola (ou rural, tanto faz…).
E daí para um centro europeu de excelência… um passo muito curto.

O aproveitamento das suas faculdades de ponta, excepcionais em extensão e profundidade, constituíra preocupação imediata dos que agora apostavam nos seus privilegiados dotes intelectuais. E a breve trecho, concluídas as provas de doutoramento, precipitado o caos em Angola após a ignomínia do abandono colonial mais abjecto, surge - com oportunidade manifesta -, em resultado dos méritos que, entretanto, se lhe reconheceram além-fronteiras, honroso convite para uma instituição internacional. Em funções científicas definidas. Não para uma qualquer e desproporcionada missão de objectivos políticos difusos ou nutridos.

Aí cumprira uma notável carreira de mais de trinta anos.

E retornaria, afinal, não ao seu chão natal, mas à extensão natural que o outrora “jardim à beira-mar plantado” - na descontinuidade telúrica - sempre representara.

Chegara há dias, verão adentro, nas feições incaracterísticas de um estio pardacento e pluvioso.

Instalara-se em Cascais.

Seu propósito: desfrutar das delícias da terra-mãe a que o ligavam laços de ancestralidade, conquanto no seu peito ardessem ainda as febres de uma África que marca, de um deserto que imprime um cunho de vida, na imensidão do areal, que Namibe, no idioma nana, quer significar exactamente enorme - são 1.600 Km2 de extensão -, cujo símbolo maior, tal qual o imbondeiro o é para a portentosa Angola, é a “welwítchia mirabilis”, que resiste à rudeza do clima e à ausência de água, já que não há ali, no extenso areal precipitação detectável, como lição perene de vida.

E, para além dos miríades de documentos de suma importância que produzira em mais de três decénios de deambulações pelo mundo (e pelos corredores do poder em todas as latitudes), que nos arquivos oficiais se depositam, pretende dispor do remanescente dos seus dias, cumpridas as missões oficiais, para se consagrar à escrita -quem sabe se para versar os temas técnicos que ainda lhe avassalam o espírito, quem sabe se para narrar aventuras outras que as viveu no seu imenso peregrinar pelo mundo, em jeito de um relato para a posteridade.

Menino do Namibe, que bico-de-lacre encantara, que se não deixara aprisionar pelos curtos horizontes de quem transportara para África a estreiteza de análise reflectida em um qualquer beco de um lugarejo medieval, ganhara asas, projectando-se no universo da ciência, tornara-se cidadão do mundo e ali estava extasiado, com o olhar vago, distante, como se o seu destino se houvesse espraiado no ignoto mar de que a baía de Cascais era só princípio …

Menino do Namibe que no verdor da vida forjara o seu carácter entre homens de envergadura moral e intelectual, como os que na exuberância do planalto souberam cultivar com o maior desvelo as plantas sãs, erradicando as ervas daninhas, e a fazer germinar as sementes de que se nutrem os campos do devir. E cujo projecto, que se desmoronou nas contradições da história e na loucura dos homens, se expandiu nos dilectos filhos que deram ao mundo nota de que não há horizontes cerrados quando o espírito paira por sobre os apertados limites de um mundo sem fronteiras.

Menino do Namibe, meninos do Namibe que avessos aos trambolhões da história perseguiram sempre a magnitude dos horizontes quais miragens que no deserto se dissimulavam para se transmudarem em realidades sentidas - de vidas com sentido -, talhadas no cacimbo do inverno, no vento leste fustigante que açoitava corpo e alma, nas poeiras deslizantes de um Kalahari de ilusões e de magia onde a vida viceja e as welwítchias - indiferentes à ingratidão e à cólera da natureza - mantêm a sua majestade e a suma beleza que as enroupa.

Menino do Namibe que soube, como tantos outros, superar a mediocridade dos que o queriam gloriosamente medíocre…
Mário FROTA
apDC - associação portuguesa de Direito do Consumo

4 comentários:

oakleyses disse...

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